quarta-feira, 31 de maio de 2017

Comunicando Arquiteturas Corporativas (Parte 3)

Por Antonio Plais (*)

Na nossa postagem anterior abordamos o desenvolvimento de sistemas como um processo de transformação do conhecimento, onde conversações são usadas para criar e compartilhar este conhecimento. Discutimos o conceito de comunidade de desenvolvimento do sistema, e as características desta criação e compartilhamento de conhecimento. Nesta postagem, discutiremos algumas estratégias possíveis de comunicação.

Estratégias de conversação


A transformação do conhecimento discutida anteriormente se dá através de conversações. Estas conversações podem ser “atômicas” (e.g. reuniões um-a-um), em pequenos grupos (e.g. workshops), até em grandes apresentações ou comunicação em massa (e.g. seminários, boletins). Importante para discutir o papel da conversação no processo de comunicação do conhecimento é a definição da sua meta de comunicação: qual o estado de conhecimento que a conversação pretende atingir ou manter.

Para atingir sua meta de comunicação, uma conversação precisa ser realizada de acordo com uma estratégia de conversação determinada. Esta estratégia é necessária para orientar o processo de comunicação rumo à meta desejada, aumentando assim as chances de que o estado desejado de conhecimento seja efetivamente atingido com o mínimo de ruído de comunicação possível.

Conversações não acontecem no vácuo: o contexto em que a conversação ocorre limita as possibilidades de execução da conversação. O contexto em que ocorre uma conversação pode ser caracterizado por alguns fatores situacionais:

  • Disponibilidade de recursos: fatores como tempo disponível, atores envolvidos, capacidades e conhecimento exigidos dos participantes, custos financeiros, habilidade do comunicador, são importantes para a elaboração da estratégia de comunicação
  • Complexidade: Os recursos utilizados para a conversação, e o conhecimento a ser transmitido, possuem um certo grau de complexidade. Fatores como heterogeneidade da audiência, quantidade de atores, complexidade da tecnologia usada, complexidade do assunto em si, e tamanho da lacuna de conhecimento a ser preenchida, devem ser cuidadosamente avaliados.
  • Incerteza: Para estabelecer uma estratégia de conversação, você parte de certos pressupostos sobre a meta de comunicação, seu estado inicial, a disponibilidade de recursos e a capacidade de compreensão dos atores. Durante a execução da comunicação, alguns destes pressupostos podem se revelar errados (e.g engajamento dos atores, compreensividade do material, funcionamento dos recursos de apresentação). Uma boa estratégia de conversação deve prever ações mitigadoras para possíveis problemas causados por pressupostos incorretos.

Uma estratégia de conversação deve, tipicamente, cobrir os seguintes aspectos:

  • Planejamento de execução: Um plano de comunicação estabelece quando e como a conversação (possivelmente sub-dividida em várias interações) ocorrerá, quem será envolvido, que material e conhecimento preliminar deve estar disponível, etc.
  • Linguagens de descrição: Qual a linguagem de comunicação (e.g. idioma, simbologia, convenções) será utilizada?
  • Meio de comunicação: Que tipo de meio de comunicação (e.g. presencial, remoto, escrito, falado) será utilizado para possibilitar a interação entre os atores?
  • Modo cognitivo: o modo cognitivo se refere à forma como o conhecimento será processado pelos atores:
    • Abordagem analítica: normalmente faz uso de abstrações para lidar com a complexidade e facilitar o entendimento
    • Abordagem experimental: normalmente utilizada para reduzir a incerteza através da observação e geração de mais informações através de experimentações, jogos, teatralização, simulações, e outras formas de interação dos atores com o problema ou solução sob análise.
  • Modo social: define o modo como os atores que executam o desenvolvimento interagem com os atores do domínio do negócio:
    • Orientado por especialista: neste modo os atores especialistas (no assunto) produzem descrições com base em seu próprio conhecimento, em entrevistas ou observações, e outras técnicas, que são apresentadas para os atores do negócio para discussão e aprovação.
    • Participativo: neste modo os atores produzem de forma interativa e cooperada (e.g. workshops, reuniões, debates) o conhecimento necessário para a transformação pretendida. Pode ser usado tanto para a aquisição de conhecimento, como para o refinamento e facilitação da mudança organizacional.
  • Modo de comunicação: alguns padrões comuns de comunicação podem ser usados para a definição da estratégia de conversação:
    • Razão emitente-recebedor: um-para-um, um-para-muitos, muitos-para-um, muitos-para-muitos.
    • Resposta: é esperada alguma resposta do(s) recebedore(s), o que poderia levar a um diálogo ou discussão?
    • Atraso de tempo: a comunicação se dará em tempo “real” (e.g. pessoalmente, telefone) ou “assíncrona” (e.g. correio eletrônico)
    • Localização: a distância percebida entre o emitente e o recebedor. Pode ser física (duas pessoas em cidades diferentes), mas também cultural (grupos de pessoas com diferentes passados)
    • Persistência: a comunicação deve ser facilmente recuperada (e.g. gravada, filmada, escrita), ou qual a velocidade com que a informação pode ficar obsoleta?

Conclusão

Uma discussão aprofundada das diferentes análises, combinações, composição, vantagens e desvantagens das diferentes abordagens para um planejamento de conversação efetivo foge ao escopo desta postagem. No entanto, recomendo que todos os envolvidos em processos de transformação do conhecimento procurem se educar, desenvolver e praticar estas competências de comunicação, eventualmente com a ajuda de um especialista facilitador ou coach. Ao lado das habilidades pessoais, as habilidades de comunicação são, talvez, as mais importantes para o sucesso de uma equipe de transformação organizacional.

Próximos passos


Na continuação desta série de artigos, vamos discutir:

  • Conversações para a comunicação da arquitetura
  • A linguagem ArchiMate como meio de descrição de arquiteturas

Até a próxima!!

(*) Baseado no livro Enterprise Architecture at Work, 4ª edição (2017), Marc Lankhorst et al

terça-feira, 30 de maio de 2017

Reformando sua Casa: Pontos de Vista e Visões

Em posts anteriores [1] e [2] eu comentei sobre as semelhanças existentes entre a construção de uma casa e a Arquitetura Corporativa.

Agora, imagine que você deseje realizar uma reforma em sua residência e contrate um eletricista e bombeiro hidráulico. Você precisará passar para esses profissionais informações sobre o trabalho a ser realizado. Ambos trabalharão na mesma casa, mas, para realizar seus serviços, eles precisarão de informações diferentes. Enquanto o eletricista estará interessado em questões como pontos de luz, interruptores e fios, o bombeiro hidráulico precisará saber como funciona o encanamento de água e esgoto da residência.

Esses profissionais precisam de diferentes pontos de vista do imóvel, que serão representados por diferentes visões. Ou seja, a planta elétrica da casa será útil para o eletricista, enquanto, para o bombeiro hidráulico, as informações necessárias estarão presentes na planta hidráulica.

Algo similar acontece nas empresas. Nem todos os funcionários de uma empresa estão interessados nas mesmas informações. O ponto de vista de um diretor é completamente diferente daquele de um técnico. Por isso, é importante que a Arquitetura Corporativa tenha a habilidade de expor as informações dependendo do interesse dos envolvidos.

É a isso que tanto o TOGAF quanto o ArchiMate chamam de Ponto de Vista.

PONTO DE VISTA define abstrações do conjunto de modelos que representam a Arquitetura Corporativa.
Cada ponto de vista é dirigido a um tipo particular de parte interessada, com objetivo de abordar um determinado conjunto de preocupações.
Os pontos de vista podem ser utilizados para visualizar certos aspectos isoladamente e relacionar dois ou mais aspectos.

Por outro lado, as plantas geradas a partir desses pontos de vista são as visões.

VISÃO é uma parte da descrição da Arquitetura Corporativa.
A visão é adaptada para uma parte interessada, abordando um determinado conjunto de preocupações.
Uma visão é especificada por meio de um ponto de vista, que prescreve os conceitos, modelos, técnicas de análise e visualizações que são fornecidos pela visão.


Acredito que, nesse momento, você esteja interessado em exemplos! Mas, isso é assunto para um próximo post. Até lá!

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Lei de Acesso à Informação: 5 anos de avanços, desafios e oportunidades - Parte 03


Por Thiago Ávila

Encerrando à série de três artigos sobre os avanços, desafios e oportunidades dos 5 anos da Lei de Acesso à Informação do Brasil - LAI, neste artigo vamos apresentar algumas  oportunidades a serem exploradas com o advento da LAI no Brasil.




Nos artigos anteriores, apresentamos o que representa a Lei de Acesso à Informação do Brasil (Lei Federal 12.527/2011[1]), pontuamos os grandes avanços conquistados e fortalecidos com o advento desta legislação e ainda os seus principais desafios. Por fim, além dos avanços e desafios, a Lei de Acesso à Informação também nos proporciona muitas oportunidades para o aprimoramento da democracia, do desenvolvimento socioeconômico e das instituições públicas. Dentre elas:

1.    Dados e Informações para geração de novos negócios – Desde o ano de 2010 que vários estudos e matérias jornalísticas já vem apontando que os dados são o “novo óleo” (Forbes, 2012)[1] e que estão levantando uma nova economia (The Economist, 2017)[2].



Ainda em 2013, a Vice-Presidente do Comitê Europeu responsável pela Agenda Digital sinalizou que os dados abertos movimentariam cerca de 70 bilhões de euros até 2017[3]. Por outro lado, a consultoria EMC sinalizou que até 2020, teremos cerca de 40 Zettabytes (trilhões de gigabytes) de dados disponíveis em todo o mundo (assunto já explorado aqui no blog). Nos últimos anos, diversos conceitos tecnológicos passaram a fazer parte do cotidiano dos governos e empresas, como o BigData (grandes volumes de dados para geração de conhecimento), Data Analytics, Machine Learning (aprendizado de máquina) e a Web Semântica. Além disso, conceitos veteranos como o da Inteligência Artificial nunca estiveram tão falados. Grandes empresas estão se formando tendo os dados como principal insumo como o Uber, Google, Waze, assim como empresas brasileiras como o Boa Moradia[4], voltado a escolha inteligente de imóveis a partir do perfil do cliente e fontes de dados abertos de educação, saúde e segurança e a IlhaSoft com o projeto U.Report[5] que visa a geração de dados de pesquisa em formatos abertos.



2.    Processamento automatizado de dados para o combate a corrupção – Especialmente com o cumprimento dos requisitos para publicação de Dados em formato Aberto, a LAI abre uma grande janela de oportunidades para o combate a corrupção através do desenvolvimento de rotinas de processamento automatizado de dados e robôs dotados de inteligência artificial voltados a busca sistemática de indícios de não conformidades e possíveis irregularidades do uso do dinheiro público. Neste contexto, destacam-se a operacionalização do Observatório de Despesas Públicas[6] – coordenado pela Controladoria Geral da União e a Operação Serenata de Amor[7], um projeto de tecnologia que usa inteligência artificial para auditar contas públicas e combater a corrupção e que atua no momento na análise de dados sobre gastos de parlamentares.

3.    Melhoria da oferta de dados para melhorar a qualidade de serviços públicos e da produção da informação e do conhecimento – A maior disponibilidade de dados e informações contribui significativamente para a melhoria do desempenho do estado e dos serviços públicos. A oferta de dados reduz o retrabalho na obtenção de tais dados, permite o cruzamento de dados, detecção de não-conformidades e a melhoria dos serviços públicos. Por exemplo, no Estado de Alagoas, antes da existência do Portal de Dados Abertos e da unidade organizacional que o mantém na Secretaria de Estado do Planejamento e Gestão, praticamente não havia oferta atualizada de dados e informações geoespaciais (mapas e planos de informações) sobre o Estado e seus municípios. Atualmente estão disponíveis mais de 150 mapas do Estado e cerca de 50 planos de informações geoespaciais que são reutilizados para trabalhos técnicos, estudos técnicos e científicos, dentre outros.



4.    Maior volume de dados e informações para a pesquisa técnica e científica – Nunca na história do mundo houve tanta oferta de dados para o aprimoramento da pesquisa científica. Segundo o Dataportals.org, existem 520 Portais de Dados Abertos em todo o mundo, sendo 23 na América do Sul.




5.    Oportunidades para que a sociedade conheça em detalhes o Estado que a administra e possa cobrar e realizar as transformações que nosso Brasil precisa. – A sociedade nunca dispôs de tanta informação confiável e tempestiva sobre a Administração Pública como atualmente. Apenas o Portal da Transparência do Governo Federal recebeu em 2016 mais de 21 milhões de visitas, e no mês de março de 2017 recebeu quase 2 milhões de visitas[8]. A transparência e os dados abertos, além de servir de relevante insumo para o controle social, também fortalece significativamente o trabalho da Imprensa apoiando o surgimento de novos conceitos como o Jornalismo de Dados, que visa a exploração de novas possibilidades que se abrem quando se combina o tradicional "faro jornalístico" e a habilidade de elaborar matérias jornalísticas envolventes e relevantes com a escala e o alcance absolutos da informação digital agora disponível. Tal temática vem sendo gradativamente explorada no Brasil por organizações e empresas, como a Agência Tatu de Jornalismo de Dados.



Parabéns Lei de Acesso à Informação do Brasil. Que todos nós brasileiros possamos comemorar seus avanços, superar seus desafios e aproveitar as oportunidades. Um Brasil mais transparente e aberto é o que a nossa democracia precisa.

Até a próxima!!!



[1] https://www.forbes.com/sites/perryrotella/2012/04/02/is-data-the-new-oil/#62b00ece7db3
[2] http://www.economist.com/news/briefing/21721634-how-it-shaping-up-data-giving-rise-new-economy
[3] http://europa.eu/rapid/press-release_SPEECH-12-149_en.htm
[4] http://boamoradia.com.br/
[5] http://ilhasoft.com.br/u-report-aplicativo-ilhasoft-para-unicef/
[6] http://www.cgu.gov.br/assuntos/informacoes-estrategicas/observatorio-da-despesa-publica
[7] https://serenatadeamor.org
[8] http://www.portaldatransparencia.gov.br/sobre/Estatisticas_visitacao/marco-2017.pdf

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Planejamento das Entregas em conformidade com a Lei das Estatais - Parte 1

Na série Modelo de Maturidade em Governança Corporativa e a Lei das Estatais abordamos o alinhamento entre o roteiro de recomendações proposto pelo Decreto nº 47.154, as boas práticas em Governança Corporativa e o FACIN.

Já sabemos o que temos que fazer, nesta nova série abordaremos uma proposta de como fazê-lo para que possamos estar em conformidade com a Lei no dia 01 de julho de 2018.

Sugerimos inicialmente a criação de um Comitê de Governança Corporativa para liderar o processo de adequação.

Após a identificação do alinhamento entre o roteiro de recomendações e as boas práticas de Governança Corporativa inicia-se a fase de implementação nas empresas públicas.

O Modelo pode ser acessado em: https://kumu.io/Guto/maturidade-em-governanca 

Essa fase é composta de entregas que são relacionadas às práticas do Nível 1 - Iniciado de Maturidade e priorizadas de acordo com a Matriz RACI de Responsabilidades destacadas na figura 1.

Figura 1 – Entregas do Nível 1 - Iniciado de Maturidade

Siglas utilizadas nesse artigo: Conselho de Administração (CA), Comitê de Auditoria Estatutário (CAE), e Ferramenta utilizada para atribuição de responsabilidades (RACI).

O mapa destaca as entregas do Nível 1 - Iniciado de Maturidade relacionadas com as seguintes Práticas:

·        A companhia possui um CA.
§  Regimento CA
o   Estatuto Social
o   Política de Transações
o   Análise de Riscos
o   Análise de Atendimento das Metas
o   Planejamento Estratégico
o   Estratégia de Longo Prazo
o   Política de Divulgação
o   Plano de Negócios
o   Política de Gestão de Pessoas
o   Código de Ética

·        A companhia possui um CAE.
§  Regimento CAE
o   Processo de Avaliação dos Administradores
o   Relatório Anual CAE
o   Canal de Denúncias
o   Análise de Riscos
o   Política de Transações
o   Estatuto Social
o   Área de Integridade e Riscos
o   Demonstrações Financeiras

·        As demonstrações financeiras são auditadas por auditor totalmente independente da gestão: contratação, destituição, honorários, escopo e avaliação.
§  Demonstrações Financeiras

·        Matriz RACI 1 – Entregas priorizadas para o nível 1:
§  Planejamento Estratégico
§  Código de Ética
§  Plano de Negócios
§  Análise de Riscos e Oportunidades (Estratégia de Longo Prazo)

O planejamento da execução de cada entrega do Nível 1 pode ser acompanhado pelo Comitê de Governança Corporativa através da seguinte matriz:

Figura 2 – Matriz RACI das Entregas do Nível 1 - Iniciado de Maturidade

A entrega Planejamento Estratégico está relacionada com a visão Estratégia do FACIN.

Acesse aqui o detalhamento completo das práticas de governança e suas respectivas entregas em conformidade com a Lei.

No próximo artigo abordaremos as entregas referentes às práticas do Nível 2 Expandido de Maturidade em Governança Corporativa!

Autores: Guttenberg Ferreira Passos, João Souza Neto e Pedro Bramont

terça-feira, 23 de maio de 2017

Transparência como estímulo a uma Sociedade mais participativa - Melhor entendimento aumenta a participação

Hoje vou falar sobre como a Transparência Pública pode ajudar a incentivar o envolvimento e participação da Sociedade em questões públicas.

Existem discussões sobre como conversas sobre os serviços públicos e como eles são oferecidos pode tornar mais estreitos os laços entre Sociedade e Governo. No Brasil, existem iniciativas governamentais que focam em fornecer informações sobre os serviços públicos, afim de estimular o maior envolvimento da Sociedade nestas questões. Fazendo uma rápida busca na internet é possível identificar uma série de iniciativas, algumas que foram ficando pelo meio do caminho e outras ganhando força. [1][2][3]

Uma iniciativa, talvez simples porém importante, é a "Carta dos Serviços", documento que deve ser preparado por qualquer instituição pública para informar os cidadãos sobre o tipo de serviços oferecidos, como acessá-los e como esta organização pública se compromete a fornecê-los. Outra iniciativa compreende consultas públicas, a fim de coletar contribuições da Sociedade sobre ações a serem realizadas em diferentes questões públicas.

Enfim, existem diferentes níveis de participação em contextos democráticos através do uso das TICs (tecnologias de informação e comunicação). Essas classificações mostram o grau de participação democrática em uma escala, desde a provisão de informações governamentais (como é o caso da Carta de Serviços) até a deliberação pública (como é o caso dos sites de consultas públicas como o Participa.br e diversos apps que focam em assuntos específicos do universo público). A cada nível, a participação, a discussão e o poder de decisão são aumentados.

Vou citar um trabalho[4] bastante interessante, e que foca no nível mais básico de participação democrática que é o de prover informações básicas sobre serviços públicos.

Normalmente o que se vê nos sites dos governos é um link para “Contato”, ou ainda, “Fale conosco”. Os cidadãos podem enviar mensagens pré-classificadas (sugestões, elogios, críticas, etc.) para serem recebidos por um agente público interno, e podem ser respondidos ou não, de acordo com a política de relacionamento da organização pública. Porém, apesar de termos avançado na oferta de serviços públicos de forma digital e de oferecer formas de comunicação do cidadão com o Governo, ainda estamos engatinhando em uma cultura mais participativa onde o cidadão discute com o Governo sobre o serviço prestado.

Neste trabalho que cito como exemplo vejam a proposta simples de uma ferramenta para apoiar a discussão e compartilhamento de informações sobre processos públicos que também permite o uso de informações de conversas dos usuários para identificar melhorias nos serviços. 

Veja a figura abaixo de um processo (desculpem, mas está em inglês pois o trabalho foi publicado em um veículo internacional). Uma estudante, clicou em um serviço (de uma lista de serviços oferecidos pela Universidade) para saber como proceder para realizar o registro em disciplinas para o próximo período letivo. Ela se depara com uma descrição gráfica e textual de todos os passos deste procedimento e após ler começar a ter dúvidas sobre o mesmo.
O que aconteceu é que no último semestre o sistema teve um problema e não completou o registro dela em uma disciplina. Ela só descobriu isso quando não encontrou seu nome na lista de disciplina. Ela acredita que um passo está faltando no procedimento pelo qual os alunos nessa situação são informados desta situação. Mas como comunicar esta situação?

Ela nota então que existem 3 tipos de círculos em cores diferentes e curiosa ela clica e nota que eles marcam comentários positivos, neutros e negativos sobre os passos do procedimento de registro em disciplinas.

Lendo seu conteúdo (a), ela descobriu que eles estavam relacionados com o "registro de veteranos na disciplina" e que tinham sido feitos por membros do colégio (Mark era seu professor e diretor do colégio e John era um Estudante veterano que foi a disciplinas com ela). E é possível estabelecer um diálogo entre as pessoas (b).


Ela acha interessante e descobre que pode inserir suas próprias sugestões.
   
A proposta dos autores ajuda a organizar as sugestões e críticas dentro do contexto de uma atividade do serviço que é prestado (provendo inclusive estatísticas), o que ajuda a organizá-las para análise de melhoria do serviço prestado. 

Claro que a primeira coisa que eu penso é: E se me deparar com 300 comentários? Como analisar? Ah! Já existem mil técnicas e tecnologias baratas e disponível para análise de linguagem natural em textos não estruturados. Mas isso fica para um próxima conversa! 

Este exemplo mostra como precisamos sim pensar em abordagens mais complexas e completas para apoiar a participação democrática através do uso de TIC, mas como podemos começar com coisas simples. O custo é baixíssimo. 

Basta boa vontade. 

Até a próxima!





[2] http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2014/04/prefeituras-comecam-usar-app-para-receber-reclamacao-de-cidadaos.html

[4] Bruna Dirr, Renata Araujo and Claudia Cappelli, 2011, Talking about Public Service Processes, Third IFIP WG 8.5 International Conference, ePart 201,  pp. 252- 261, Delft, The Netherlands