segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Bancos de cérebros

De 1999 a 2007 trabalhei em um escritório estratégico de processos e projetos na Caixa Econômica Federal. A chamada Gerência Nacional de Soluções Empresariais foi uma das primeiras unidades no setor público brasileiro com tais características e sua existência resistiu a várias mudanças estruturais e a trocas de comando e das equipes técnicas, contribuindo decisivamente para a melhoria dos resultados organizacionais.

Um de seus instrumentos que mais me fascinavam era o fórum semanal de discussões que realizávamos, impreterivelmente, nas tardes de sextas-feiras. A pauta e a condução dos encontros era de responsabilidade de todos da unidade, não importando sua localização na hierarquia da empresa (sabíamos que os eventos ocorreriam ainda que os gerentes do escritório tivessem outros compromissos, pois os fóruns não eram de propriedade de indivíduos, mas do coletivo).

Mesmo já estando afastado da unidade há algum tempo, creio que os fóruns duraram mais de uma década e poucos colegas do time original participaram de todas as edições, o que prova que a cultura de uma prática bem-sucedida foi mais forte que nossos caminhos pessoais.

Estou lendo o livro "Criatividade S.A. - superando as forças invisíveis que ficam no caminho da verdadeira inspiração", de Ed Catmull, um dos presidentes do estúdio de animação Disney / Pixar, e no capítulo 5 da obra uma prática similar é apresentada como um dos grandes trunfos de criação daquela empresa: os chamados "bancos de cérebros".

A Pixar descobriu com a prática, que todos os seus filmes, no início do processo de desenvolvimento, "são uma droga", o que abre espaço para que ninguém fique na defensiva ao receber contribuições para melhorar o produto final.

Parece óbvio que uma organização que lida com criatividade como foco principal precisa inovar constantemente e, ao mesmo tempo, agradar seus clientes - senão, como pensar em um desenho animado a ser distribuído em escala mundial, para culturas diferentes, fazendo sucesso universal e ainda sendo alicerce de um conjunto de outros negócios como parques temáticos e produtos associados? Os bancos de cérebros são reuniões entre os criadores de uma obra (diretor e roteirista, por exemplo) e outros competentes profissionais, também ligados à criação, que podem e devem dar palpites com o objetivo de aprimorar o filme e torná-lo mais imune a riscos.

A ideia é simples mas sua execução depende de algumas premissas inegociáveis. A primeira delas já foi mencionada no parágrafo anterior - é preciso juntar pessoas inteligentes e apaixonadas, com competência para criar e vontade de se expressar, não importando se é a moça do cafezinho ou o vice-presidente da empresa (conta-se que o próprio Steve Jobs, sócio da Pixar, nunca participou de uma reuniões dessas, por não se achar capaz de contribuir com criação de animações). A segunda premissa, no entanto, talvez seja a mais importante de todas: é preciso haver sinceridade na comunicação. Deixando os egos do lado de fora da sala, todos que participam de um banco de cérebros se enxergam como co-responsáveis pela solução que é buscada, nunca deixando que ideias individuais se sobreponham aos objetivos comuns ou que divergências em relação a determinados pontos sejam vistas como questões pessoais. Catmull diz que é um ambiente de muito amor - apesar do volume das acaloradas discussões poder sugerir o contrário. A terceira característica marcante de um banco de cérebros é a orientação de buscar soluções para questões identificadas.

Os bancos tornam-se um lugar seguro (quem escuta prepara-se para abrir mão de ideias que pareçam não funcionar, e quem sugere não busca receber crédito pelo palpite ou agradar seus superiores) e não há prescrição quanto ao que foi debatido - a última palavra ainda cabe ao responsável pelo projeto.

Porém, como há confiança nos competentes pares escolhidos e como, segundo o ditado, "nós somos melhores que eu", a roda criativa gira constantemente e dá bons frutos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Entendendo a atuação do W3C para a Web dos Dados (W3C Web Activity)

Por Thiago Ávila*
Conforme estamos explorando nesta série de artigos [1] e [2] o crescimento da oferta de dados global vem trazendo desafios interessantes e dentre os caminhos para o melhor aproveitamento do potencial destes dados a “Web dos Dados” vem se consolidando como o novo paradigma para os próximos anos.

Isto se deve porque cada vez mais as aplicações Web têm fornecido acesso aos dados e consequentemente, consumindo-os. Desde visualizações simples às ferramentas interativas sofisticadas, há uma crescente dependência da disponibilidade de dados que pode ser "baixa" ou "intensa", vir de origens distintas, e ainda em diferentes formatos. Entretanto, os dados têm sido publicados de forma desconectada e descoordenada de outros publicadores e muito menos sem uma modelagem adequada e vocabulários comuns. Neste contexto o W3C estabeleceu o W3C Data Activity [3], que reconhece e trabalha para facilitar o potencial de integração e processamento de dados em escala da Web mediante um conjunto de ações e diretrizes que incluem padrões de troca de dados, modelos, ferramentas e guias para a construção da Web dos Dados.



A visão geral do W3C Data Activity [3] é que as pessoas e organizações devem ser capazes de compartilhar dados, tanto quanto possível, utilizando suas ferramentas existentes e desenvolvendo práticas, que habilite outros usuários a gerar dados derivados agregando-os alto valor, utilizando-os da melhor maneira que desejarem. Indo além da interoperabilidade dos dados, mas das comunidades produtoras e usuárias.

O W3C Data Activity [3] está sendo desenvolvido de forma integrada sobre as atividades já existentes de Governo Eletrônico (eGovernment) e Web Semântica, tendo atualmente os seguintes grupos de trabalho em atividade: 

 ·         Spatial Data on the Web Working Group (Grupo de Trabalho de Dados Espaciais na Web) [4] – Objetiva o desenvolvimento das melhores práticas para publicação e consumo de dados geoespaciais para a Web, visando sua integração com outros conjuntos de dados e ainda, ampliando o potencial do consumo destes dados por máquinas;

·         RDF Data Shapes Working Group (Grupo de Trabalho de Camadas de dados em RDF)[5] – Objetiva o desenvolvimento de uma recomendação que estabeleça as limitações estruturais e validação de dados descritos em RDF;

·     Linked Data Platform Working Group (Grupo de Trabalho para uma Plataforma de Dados Conectados)[6] – Objetiva o desenvolvimento de uma recomendação e padrões para a integração de aplicações baseadas em HTTP (RESTful) para leitura e escrita de Dados Conectados;

·         Data on the Web Best Practices Working Group (Grupo de Trabalho de Boas Práticas de Dados na Web)[7] – Objetiva o desenvolvimento das melhores práticas para publicação e consumo de dados para a Web visando desenvolver um ecossistema de dados abertos, provendo guias e orientações para publicadores de dados promovendo especialmente o seu reuso, bem como aprimorar a confiança em torno dos dados incrementando o seu potencial para a geração de novas informações

·         CSV on the Web Working Group (Grupo de Trabalho sobre CSV na Web)[8] – Objetiva o aprimoramento de tecnologias em que aplicativos dependentes de dados na Web possam oferecer maior interoperabilidade ao trabalhar com conjuntos de dados usando o formato CSV (valores separados por vírgulas) ou formatos semelhantes.

·Semantic Web Interest Group (Grupo de Interesse da Web Semântica)[9] – Anteriormente conhecido por grupo de interesse sobre o Resource Description Framework (RDF), visa promover a discussão sobre o desenvolvimento e o uso da Web Semântica, incluindo as suas tecnologias como o RDF, OWL (Ontology Web Language) e o SPARQL (SPARQL Protocol and RDF Query Language).

·         Semantic Web Health Care and Life Sciences Interest Group (Grupo de interesse sobre a Web Semântica para a Assistência Médica e Ciências da Vida)[10] – Objetiva o desenvolvimento, o incentivo e o suporte ao uso da Web Semântica na área da assistência médica, ciências da vida e pesquisa médica.

·      Data Activity Coordination Group (Grupo de Coordenação)[11] – Objetiva o desenvolvimento e a coordenação de toda a Web Data Activity.


Outros dois grupos, não menos importantes, encerraram suas atividades após conclusão de relevantes trabalhos que são o:

  •       RDF Working Group (Grupo de Trabalho para o desenvolvimento do RDF) [12] – Objetivou o aprimoramento do RDF incluindo novos recursos desejáveis e importantes para a interoperabilidade;

  •    E ainda, o Government Linked Data Working Group (Grupo de Trabalho para os Dados Conectados Governamentais)[13] que objetivou o desenvolvimento de boas práticas que apoiassem governos a publicarem seus dados de forma efetiva e conectada, utilizando as tecnologias da Web Semântica. 

Felizmente, apesar da problemática dos artigos anteriores, as perspectivas podem ser promissoras considerando todo este maravilhoso trabalho que vem sendo desenvolvido por inúmeros especialistas mundo a fora sob a coordenação do W3C. Nos próximos artigos estaremos explorando ainda mais esta nova Web, buscando entender como ela está sendo estruturada, os novos conceitos e aplicações relevantes.

Até a próxima!!!

* Estes artigos contam são oriundos de pesquisas científicas desenvolvidas no Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (NEES), do Instituto de Computação da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e contam com a contribuição direta dos pesquisadores Dr. Ig Ibert Bittencourt (UFAL), Dr. Seiji Isotani (USP), e Armando Barbosa, Danila Oliveira, Judson Bandeira, Thiago Ávila e Williams Alcântara (UFAL).


[1] Ávila, Thiago (2015). O que faremos com os 40 trilhões de gigabytes de dados na Web?. Disponível em: http://areasdeintegracao.blogspot.com.br/2015/07/o-que-faremos-com-os-40-trilhoes-de.html
[2] Ávila, Thiago e Bandeira, Judson (2015). A Web dos Dados. Disponível em: http://areasdeintegracao.blogspot.com.br/2015/08/aweb-dos-dados-por-thiago-avila-ejudson.html
[3] W3C. (2013). W3C Web Activity – Building The Web of Data. Disponível em: http://www.w3.org/2013/data/
[4] W3C. (2015). Spatial Data on the Web Working Group. Disponível em: http://www.w3.org/2015/spatial/wiki/Main_Page
[5] W3C. (2014). RDF Data Shapes Working Group. Disponível em: http://www.w3.org/2014/data-shapes/wiki/Main_Page
[6] W3C. (2012). Linked Data Platform Working Group. Disponível em: http://www.w3.org/2012/ldp/
[7] W3C. (2013). Data on the Web Best Practices Working Group . Disponível em: http://www.w3.org/2013/dwbp/
[8] W3C. (2013). CSV on the Web Working Group. Disponível em: http://www.w3.org/2013/csvw/
[9] W3C. (2001). Semantic Web Interest Group. Disponível em: http://www.w3.org/2001/sw/interest/. Acesso em: jul. 2015
[10] W3C. (2010). Semantic Web Health Care and Life Sciences Interest Group . Disponível em: http://www.w3.org/blog/hcls/
[11] W3C. (2013) Data Activity Coordination Group . Disponível em:
[12] W3C. (2011) RDF Working Group - http://www.w3.org/2011/rdf-wg/wiki/Main_Page

[13] W3C. (2011) Government Linked Data Working Group - http://www.w3.org/2011/gld/wiki/Main_Page

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Alterações introduzidas pelas NBCASP: RECEITAS E DESPESAS ORÇAMENTÁRIAS


Dentre as inovações da atual contabilidade do setor público, destaca-se o tratamento que passou a ser dispensado às receitas e despesas orçamentárias.

Antes, as receitas submetiam-se ao regime de caixa. Assim como as despesas, eram contabilizadas de acordo com a classificação orçamentária e eram transferidas para as contas de variações patrimoniais somente no encerramento do exercício. Hoje, as receitas observam o regime de competência e, como as despesas, são contabilizadas, nos fatos modificativos do patrimônio, diretamente em contas contábeis de variações patrimoniais de nomenclaturas diferenciadas da classificação orçamentária, porém relacionadas e identificadas com essa classificação e, nos fatos permutativos, em contas representativas dos elementos patrimoniais (Bens Móveis e Imóveis, Almoxarifados, Empréstimos e Financiamentos, Dívida Ativa, etc.). 

No regime de competência das receitas provenientes de fatos modificativos do patrimônio, notadamente das tributárias, o registro contábil decorre do fato gerador dos créditos a receber, em contrapartida das referidas contas de VPA de receitas, como dito, de nomenclaturas diferenciadas, porém relacionadas e identificadas com a classificação orçamentária. Qualquer procedimento em contrário, como a contrapartida dos créditos a receber em conta que não seja de VPA de receita, salvo nos fatos permutativos, descaracteriza o regime de competência a que a mesma passou a ser submetida, mesmo que a contrapartida represente acréscimo da substância patrimonial decorrente dos créditos a receber.

Quando da arrecadação, o registro contábil constitui-se apenas numa baixa desses créditos a receber, salvo quando não haja o reconhecimento prévio dos mesmos. Portanto, o registro contábil das receitas propriamente ditas, nos aspectos financeiro e patrimonial, deixa de ser, como antes, pela arrecadação ou regime de caixa, para sê-lo, agora, pelo regime de competência. Contudo, o controle da arrecadação continua sendo indispensável, sob o ponto de vista orçamentário, para satisfação de exigências legais e normativas, como na apuração das incidências sobre as receitas arrecadadas (saúde, educação, transferências legais e constitucionais, PASEP, etc.), e na emissão de relatórios específicos, como o Comparativo da Receita Orçada com a Arrecadada.

Para isso, as instituições públicas devem, naturalmente, dispor de mecanismos eficientes e eficazes, que lhes permitam contabilizar a receita pelo regime de competência e, ao mesmo tempo, manter controles paralelos da arrecadação, em condições de cumprir os objetivos colimados. Neste sentido., é imperativa a adoção do sistema integrado previsto no art. 48, Parágrafo Único, Inc. III da LC 101/2000 de modo a atender os requisitos do Decreto Federal nº 7.185/2010, complementado pela Portaria nº 548/2010 do Ministro de Estado da Fazenda, que regulamentaram aquele dispositivo da Lei de Responsabilidade Fiscal.

O padrão mínimo de qualidade exigido nesta legislação, no qual se insere a nova contabilidade, pressupõe que o sistema integrado a que se refere deva possuir os seguintes requisitos funcionais e não funcionais:

a) Integração: Não se restringe a portal próprio–comunicação, via XBRL ou outro padrão (Inc. I do art. 4º do Decreto 7.185). Uma taxonomia XBRL é um dicionário estruturado que explica o conjunto de conceitos utilizados por um país (ex. EUA), um grupo de países (ex. União Europeia) ou um domínio particular (bancos, seguradoras, bolsa de valores. As taxonomias permitem criar os documentos XBRL, as instâncias, que contêm factos (os dados contabilísticos, financeiros)trocados pelas empresas e as organizações envolvidas (bancos, bolsas, seguradoras, organismos de controlo financeiros e organizações estatísticas;

b) Exportação/Importação de dado sem formatos padronizados em TI (CSV, XML, etc.) (Inc.II do art. 4º);

c) Integridade mantida com suas características originais – um problema grave e quase intransponível se existirem módulos não integrados (Inc. III do art. 4º);

d) Disponibilidade constante para os usuários, o que estimula a tecnologia de processamento “em nuvem”- “cloud computing” (Inc.III do art. 4º);
e) Interconexão/Segurança, Acessibilidade (e.MAG), Intercâmbio de Informações e Integração para o e.Gov (art. 5º);

f) Integração com Meio Eletrônico para disponibilização dos dados de execução orçamentária e financeira. Por meio eletrônico entende-se que não se deve restringir à extração de dados diretamente do SGBD. O sistema deve permitir a integração por meio de padrões de TI (XBRL, CSV, etc. (art. 6º);

g) Aspectos Não só Orçamentários devem ser evidenciados na Internet (Inc. II, “d” do art. 7º);

h) Transparência: não se limita ao processo de execução orçamentária;(Inc. II, “e” do art. 7º);


i) Aspectos Patrimoniais fortemente relacionados à apresentação da informação (Inc. II, “f” do art. 7º);


j) Requisitos de Segurança do Sistema: a) transmissão de dados de modo criptografado (ex.: SSL); b) controla/restringe acesso de um mesmo usuário simultaneamente (art. 5º da Portaria STN/MF 548/2010);

k) Trilha de Auditoria: identificação de operação e responsável (Inc. I, II e III do § 3º e Parágrafo Único do art. 3º da referida Portaria);

l) Sistema Compatível com Normas Gerais para Consolidação das Contas (art.7º);
m) Compatibilidade, Integração e Consolidação das informações em diversas unidades do ente da Federação (Inc. II do art. 7º);

n) Elaboração e Divulgação das demonstrações contábeis e dos relatórios e demonstrações fiscais, orçamentárias, patrimoniais, econômicas e financeiras previstos em lei ou acordos internacionais dos quais o ente participe, compreendendo, isolada e conjuntamente, as transações e operações de cada órgão, fundo ou entidade da administração direta,autárquica e fundacional, inclusive empresa estatal dependente (Inc. III do art. 7º);

o) Disponibilização de Rotinas de Correção ou Anulação por Meio de Novos Registros; inalterabilidade das informações originais e preservação do histórico de registros (art. 9º);
p) Geração de Documentos em Conformidade com o PCASP (Diário/Razão/Balanços e Balancetes contábeis; (Inc. I do art. 10);

q) Impedimento de Registros após as Demonstrações Contábeis: reforça a necessidade de uma verdadeira integração, impedindo lançamentos “a posteriori” na origem (§1º do art. 11);

r) Divulgação: o Sistema deve permitir divulgação em tempo real de todos os atos de interesse público;

s) Outros Pressupostos Exigíveis, inclusive de infraestrutura operacional.

Por sua vez, a despesa era considerada antes da nova contabilidade totalmente realizada, independente de seu processamento. No encerramento do exercício, a contabilidade registrava, tanto sob o aspecto financeiro como patrimonial, a despesa empenhada a liquidar, a título de Restos a Pagar Não Processados. Uma anomalia que contrariava a realidade dos fatos e os princípios contábeis geralmente aceitos. O registro desses Restos a Pagar por essa forma prejudicava a evidenciação da situação líquida patrimonial. Além de não representarem obrigações reais que, efetivamente, devessem ser cumpridas, prejudicava o controle contábil dos elementos patrimoniais, em especial dos bens e valores a incorporar, cuja despesa, sob o ponto de vista contábil, era tida como realizada. Sabe-se que, quando não processada, a despesa inscrita em Restos a Pagar pode estar sujeita a cancelamento, e que irá depender de implemento de condição para se tornar efetiva.

Na contabilidade atual, os Restos a Pagar, enquanto não processados, são demonstrados apenas nas contas de controle ou de compensação e nos relatórios de sua execução. Figuram, ainda, no Balanço Financeiro, onde, para atender a Lei nº 4.320/64, deve ser demonstrada, inclusive, a despesa empenhada a liquidar. Para este efeito, da mesma forma como deve haver um controle paralelo da receita arrecadada, deve ser mantido também um controle paralelo dos Restos a Pagar Não Processados. Neste caso, são recomendados também mecanismos que permitam atender essas e outras exigências de ordem legal e normativa. Com o processamento normal dos Restos a Pagar Não Processados, são cumpridos os estágios da despesa em liquidação, liquidação e pagamento e os registros contábeis dos mesmos passam a compreender também os aspectos financeiro e patrimonial.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Governança e Interoperabilidade



Governança Corporativa tem origem nas empresas privadas e seus princípios e regras têm como objetivo DIRECIONAR e MONITORAR as atividades da organização de forma a priorizar os interesses de seu acionistas e stakeholders,  que muitas vezes eram prejudicados em virtude da atuação tendenciosa dos chamados Agentes, que detinham poder por eles outorgado para a direção de suas organizações.

Desta forma, a Governança Corporativa Privada decorre de uma relação de 1 (Empresa) para diversos (stakeholders e shareholders). A Governança Corporativa Pública se difere basicamente porque sugere uma relação diversos (entes estatais e paraestatais) para diversos (cidadãos).

Assim, trazemos para a Governança a dimensão Transorganizacional. Tal dimensão se torna crucial para o desenvolvimento das funções de estado, pois impõe a estruturação de elementos que possibilitem ações integradas e sinérgicas dos diversos entes que concorrem para entrega de valor ao cidadão.

O Tribunal de Contas da União  concebeu seu Referencial Básico de Governança tomando por base quatro níveis de análise: mecanismos, componentes, práticas e itens de controle. São os mecanismos: Liderança, Estratégica e Controle. Atento a dimensão transorganizacional, dentro do mecanismo Estratégia trouxe o componente Alinhamento Transorganizacional.

O TCU vinculou a este componente a seguinte prática e itens de controle, conforme abaixo:

E3.1. Estabelecer mecanismos de atuação conjunta, entre organizações, com vistas a formulação, implementação, monitoramento e avaliação de políticas públicas transversais, multidisciplinares e/ou descentralizadas.

E3.1.1 Instâncias de governança de políticas públicas transversais, multidisciplinares ou descentralizadas, das quais a organização participa, estão definidas. 

E3.1.2 Organizações envolvidas em políticas públicas transversais, multidisciplinares ou descentralizadas, das quais a organização participa, estão identificadas. 

E3.1.3 Responsabilidades de organizações envolvidas em políticas públicas transversais, multidisciplinares ou descentralizadas, das quais a organização participa, estão definidas. 

E3.1.4 Objetivos, indicadores e metas de políticas públicas transversais, multidisciplinares ou descentralizadas, das quais a organização participa, estão definidos e foram acordados com as organizações envolvidas. 

E3.1.5 Normas necessárias à execução de políticas públicas transversais, multidisciplinares ou descentralizadas, das quais a organização participa, estão definidas. 

E3.1.6 Informações relevantes relativas às políticas públicas transversais, multidisciplinares ou descentralizadas, das quais a organização participa, são compartilhadas e comunicadas às instâncias de governança das políticas e às demais partes interessadas. 

E3.1.7 Ações de políticas públicas transversais, multidisciplinares ou descentralizadas, das quais a organização participa, são avaliadas, direcionadas e monitoradas pelas instâncias de governança da política.

Basicamente tais pontos de controle procuram responder:

- Quem controla?
- Quem atua?
- Quem responde?
- Como monitora?
- Como está regulamentado?
- É transparente?
- É controlado?

Um ponto de controle importante, essencial para possibilitar a atuação em Rede dos entes envolvidos nos programas transversais e serviços públicos compartilhados é COMO INTEROPERA?

Para tanto, foi criado a arquitetura ePING – Padrões de Interoperabilidade de Governo Eletrônico, que define um conjunto mínimo de premissas, políticas e especificações técnicas que regulamentam a utilização da Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) na interoperabilidade de serviços de Governo Eletrônico, estabelecendo as condições de interação com os demais Poderes e esferas de governo e com a sociedade em geral.

A ePING considera que a interoperabilidade envolve elementos TÉCNICOS, SEMÂNTICOS E ORGANIZACIONAIS.

Fazendo uma análise de baixo para cima, as entidades que pretendam atuar em Rede devem buscar a estruturação dos diversos elementos nas dimensões acima, o que viabilizaria a interoperabilidade e, por conseguinte, a integração estratégica, o alinhamento de ações e expectativas das partes interessadas e o uso eficiente dos recursos disponíveis.

Na dimensão Organizacional, propõe-se a utilização do MODELO DE CONTEÚDO, que traz uma arquitetura corporativa em módulos, cuja adoção permitirá às organizações se encaixar numa arquitetura mais abrangente, em alto nível,  a qual deverá ser utilizada para a formatação de programas transversais e desenhos de processos compartilhados.



Vocês concordam com esta visão? Gostaríamos de saber a sua opinião!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Os desafios de interoperabilidade e da portabilidade na nuvem


Outro projeto que está em pleno andamento no subcomitê de normas internacionais de computação em nuvem (JTC 1/SC 38) se propõe a estabelecer um entendimento comum sobre os conceitos de interoperabilidade e portabilidade sob o ponto de vista de provedores e usuários de serviços de computação em nuvem, identificando as preocupações mais comuns, as funções e componentes necessários para estabelecer essas funcionalidades e cria um mapeamento com outros padrões já desenvolvidos ou em desenvolvimento.

A tarefa mais difícil, talvez, seja a de definir os TIPOS de interoperabilidade e portabilidade e seus problemas relacionados, de forma a gerar um entendimento comum sobre o tema.

De acordo com os termos já definidos na norma ISO/IEC 17788, a portabilidade de aplicativos de nuvem é descrita como a "Habilidade de migrar um aplicativo de um serviço de nuvem para outro serviço de nuvem" enquanto a portabilidade dados de nuvem é descrita como "Portabilidade de dados de um serviço de nuvem para outro serviço de nuvem". Já a interoperabilidade é descrita como na Recomendação ITU-T Y.101: "A habilidade de dois ou mais sistemas ou aplicativos em trocar informações e utilizar a informação trocada mutuamente".

Dada a complexidade dessas duas características, esse novo projeto, em seu primeiro rascunho, define novos termos (em inglês): application behaviour portability, application instruction portability, application metadata portability, application syntactic portability, legal and organizational application portability, legal and organizational interoperability, legal and organizational data portability, pragmatic data portability, pragmatic interoperability, semantic data portability, syntactic data portability, transport interoperability.

No entendimento dos experts atuantes neste projeto, a interoperabilidade pode cobrir a habilidade de um cliente de serviços de nuvem em interagir com os serviços de nuvem de forma pré-definida para a obtenção de um resultado previsível. Pode também cobrir as propriedades necessárias a uma interação entre a infraestrutura interna de TI de uma empresa e um provedor de serviços de nuvem ou mesmo a interação entre dois ou mais provedores de serviços de nuvem. Cada interação envolve certo nível de troca de informações, com a expectativa de que a informação intercambiada possa ser usada para gerar resultados desejados. A análise da complexidade chega a ponto de admitir que, por exemplo, a interoperabilidade de um serviço de Identidades e Acessos esteja presente e bem definida, mas a interoperabilidade referente às capacidades de monitoração não exista pois, provavelmente, estará sendo fornecida por interfaces absolutamente diversas.

No tocante à portabilidade, considera-se neste rascunho que não seja um conceito binário no contexto de que não se pode afirmar categoricamente que serviços, aplicativos ou dados sejam ou 100% ou 0% portáveis. Uma outra grande questão da portabilidade se refere ao custo da manutenção desta capacidade: quantos recursos são necessários para sua implementação? Parte da portabilidade por ser implementada por frameworks, linguagens mais populares, padrões e ferramentas comuns, mas a portabilidade do contexto de uso de dados, por exemplo, é algo muito difícil de implementar e, provavelmente, muito custoso tanto em termos de investimento na criação e manutenção de metadados assim como no armazenamento necessário para a manutenção deste tipo de informação pouco utilizada. Entende-se que, no contexto da computação em nuvem, a portabilidade seja entendida como a movimentação de aplicativos e/ou dados de um ambiente de computação em nuvem para outro, com interrupção e impacto mínimos no serviço. Portabilidade pode também ser entendida como a habilidade de se mover uma entidade de um sistema a outro de forma que esta entidade possa ser usada no novo sistema.

Como disse, esse projeto ainda está em fase de rascunho, assim como o projeto de fluxo de dados relatado em meu post anterior, portanto ainda há tempo de termos uma colaboração efetiva dos experts brasileiros com estes grupos.

Se você gosta do assunto e quiser colaborar com o grupo brasileiro que vai iniciar as discussões sobres os dois temas, verifique a possibilidade de participar de nossa próxima reunião no dia 28 de agosto, na sede da ABNT no Rio de Janeiro, das 14:00 às 17:30. Mesmo que não possa participar presencialmente, podemos avaliar a possiblidade de abrir o acesso remoto caso haja solicitações para tanto. Se não puder participar agora mas tiver interesse em se juntar ao grupo, mande e-mail para mim em fernando.gebara@lucianogebara.com e eu me encarrego de providenciar sua inclusão no grupo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Como fazer a padronização funcionar

Um dos painéis realizados durante a última conferência internacional sobre XBRL (Extensible Business Reporting Language - que padroniza a troca de informações contábeis e financeiras) tratou do compartilhamento de informações a respeito do processo de implantação da padronização na troca de dados.

Os participantes do painel descreveram algumas das principais lições aprendidas durante a execução de um projeto bem sucedido para troca de informações empresariais, projeto este que envolveu diversas disciplinas, e diversas agências governamentais.

Frans Hietbrink, integrante do governo da Holanda, mostrou como eles conseguiram adequar diferentes demandas de agências estatais e representantes do setor privado. O comprometimento com uma visão clara das necessidades, a imposição de padrões fortes (não apenas o XBRL, mas também padrões que se situem no meio da arquitetura de padronização) e o uso de planos formais de governança possibilitaram a modernização completa do ambiente de fornecimento de dados da Holanda. Até aquela data mais de 4 milhões de envios de informações padronizadas haviam sido feitas.

Gianluca Garbellotto, da empresa IPHIX, descreveu as diferentes tensões que podem ser vistas em um projeto de padronização de dados, mostrando como que a criação de incentivos relevantes aos que proveem os dados, empresas de software, e agências governamentais, são uma parte importante para o sucesso destas iniciativas. Garbellotto também descreveu como que a própria taxonomia pode ser usada como uma ferramenta de governança.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Web dos Dados

Por Thiago Ávila e Judson Bandeira*

Conforme exploramos no artigo anterior, as perspectivas para a produção de dados nos próximos cinco anos (2020) é animadora e desafiadora. Se por um lado a oferta de dados digitais deverá crescer exponencialmente, por outro lado, um percentual significativo destes dados podem não ser úteis para coisa alguma. 

As arquiteturas tradicionais para armazenamento de dados, especialmente na era pré-internet, foram sendo estabelecidas para armazenar os dados, em arquivos, isolados do mundo externo, caracterizando verdadeiras ilhas de dados e informações. Decorrente deste modelo, inúmeros problemas surgiram, especialmente a redundância de dados, que por sinal é um problema existente até os dias de hoje. Ao longo dos anos, o armazenamento de dados evoluiu para a criação dos bancos de dados, e posteriormente modelos de agrupamento como os sistemas de bancos de dados distribuídos e as federações de bancos de dados[1].

Paralelamente, em meados de 1996, Tim Berners-Lee publicou o artigo “The World Wide Web: Past, Present and Future [2] que definiu as diretrizes da Web, como ela devia ser na época e como ela deveria ser no futuro. Já naquela época, há quase 20 anos, Berners-Lee estabeleceu que a Web deveria ser um espaço de compartilhamento de informações para que pessoas (e máquinas) possam se comunicar entre si. Complementarmente, ele previu a existência da interação entre pessoas e hipertextos intuitivos e legíveis por máquina. 

Entretanto, a Web que conhecemos hoje foi se estruturando a partir do hipertexto, conhecidas como páginas web, tendo como principal foco a apresentação de informações. Apesar de Tim Berners-Lee ter previsto a leitura dos dados por máquina, a Web atual é prioritariamente interpretada por humanos.

A partir da Web, inúmeras possibilidades de produção de informações foram se desenvolvendo ao longo do tempo. Páginas HTML, sítios, portais, conteúdo multimídia, arquivos diversos e mais recentemente com a “era social”, os blogs, mídias sociais, dentre outros. Ou seja, a Web se tornou um espaço global de informações que cresce a cada dia.

Com o volume de informações crescente, surgiram outros problemas relevantes relacionados à busca e recuperação de informações. Rapidamente, a capacidade humana de encontrar informações na Web ficou muito limitada evidenciando a preocupação de que a localização e recuperação de dados na web deveriam ser feita por máquinas, mas faltavam dados sobre as informações que fossem entendidas por máquinas. Estes dados são conhecidos como metadados. Ademais, a Web atual é sintática, cuja busca é feita prioritariamente por palavras-chave num grande número de páginas obtendo baixa precisão. Além disso, as páginas de integram e se “linkam” de forma pouco estruturada e de forma manual.

Como resultado, nem todos os dados podem ser encontrados por meio dos mecanismos de busca tradicional na web, muito menos é possível se especificar consultas complexas sobre os dados que estejam presentes em várias páginas, como por exemplo, “Qual o nome completo de todos os capitães dos times de futebol vencedores de todas as Copas do Mundo?”. Ou seja, assim como no tempo dos arquivos, os dados na Web ainda vivem isolados uns dos outros.

Felizmente, várias instituições e pesquisadores ao redor do mundo estão muito atentos a este paradoxo, dentre elas e especialmente o W3C – World Wide Web Consortium.  O W3C tem como missão liderar a WWW para o uso máximo do seu potencial, desenvolvendo protocolos e guias que apoiem o desenvolvimento da Web em larga escala. Sua visão para a Web envolve a participação, compartilhamento de conhecimentos apoiando a construção de uma confiança em escala global. Esta visão estabelece ainda a existência de uma única Web (One Web), que adota princípios e padrões abertos.

      Não preciso explicar muito sobre qual relação à Web tem a ver com a grande oferta de dados em escala global, não é? Afinal, por onde trafegam a maioria destes bilhões e trilhões de dados distribuídos mundialmente?

Buscando alcançar esta visão o W3C vem trabalhando fortemente na construção de uma nova Web, que atenda aos princípios e padrões abertos e que vá muito além da Web que conhecemos composta prioritariamente por arquivos e páginas HTML. Esta nova Web, mais conectada e aberta está sendo denominada a “Web dos Dados”.



Na “Web dos Dados”, estipula-se que os dados passem a ser facilmente localizáveis bem como sejam associados a elementos semânticos, como os vocabulários. Além disso, os dados passam a serem entendidos como recursos de dados e para tal, precisam de identificadores exclusivos que viabilizem o acesso específico para cada recurso. E ainda, a forma como os dados passam a se relacionar entre si muda dos tradicionais esquemas de tabelas e bancos de dados para um esquema de sujeito-objeto-predicado, conhecido como tripla, dentre outros avanços. 
Felizmente, apesar da problemática do artigo anterior, as perspectivas podem ser promissoras considerando todo este maravilhoso trabalho que vem sendo desenvolvido por inúmeros especialistas mundo a fora sob a coordenação do W3C. Nos próximos artigos estaremos explorando ainda mais a Web dos Dados, buscando entender como ela está sendo estruturada, os novos conceitos e aplicações relevantes.

Até a próxima!!!

* Estes artigos contam são oriundos de pesquisas científicas desenvolvidas no Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (NEES), do Instituto de Computação da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e contam com a contribuição direta dos pesquisadores Dr. Ig Ibert Bittencourt (UFAL), Dr. Seiji Isotani (USP), e Armando Barbosa, Danila Oliveira, Judson Bandeira, Thiago Ávila e Williams Alcântara (UFAL).
[1] Ribeiro, Danusa; Lóscio, Bernadette; Souza, Damires (2011). Linked Data: da Web de Documentos para a Web de Dados. V ERCEMAPI – Escola de Computação Ceará, Maranhão e Piaui. Disponível em: http://pt.slideshare.net/danusarbc/linked-data-da-web-de-documentos-para-a-web-de-dados-10057267
[2] Berners-Lee, Tim (1996). The World Wide Web: Past, Present and Future. Disponível em:  http://www.w3.org/People/Berners-Lee/1996/ppf.html

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Como Arquitetura Corporativa pode apoiar a implantação de Transparência Organizacional A Arquitetura TOGAF no apoio a implantação de Transparência – Fase B

No artigo anterior eu discuti a implantação de transparência dentro do contexto de execução de uma rodada do framework TOGAF, para a fase A - Visão da Arquitetura. No final desta fase todos devem ter uma ideia comum e compartilhada da expectativa de como realizar o trabalho e do resultado esperado.




A partir daí inicia-se o desenvolvimento e análise de gap das arquiteturas (fase B, C e D). O objetivo é construir os modelos necessários para entender os conceitos e como a organização funciona (e o que deve melhorar e se quer alterar/evoluir). Na analogia com a construção de uma casa, imagina que agora é necessário criar os modelos que representem diversos aspectos da sua construção.




É assim também com transparência! Transparência não está somente na arquitetura de dados (uma informação que deve ser transparente), mas também nos processos de negócio, na visão estratégica, nos sistemas de informação, nas tecnologias utilizadas e na infraestrutura que suporta tudo isso. Quando se constrói e analisa cada modelo desses que é criado, transparência converte-se em um requisito desta análise.

Então hoje eu vou falar sobre a fase B. Arquitetura de Negócio.


As perguntas, de uma forma geral, estão agora relacionadas à: Como a organização opera hoje? E como ela deveria operar daqui a um determinado tempo? 

Esta fase envolve a construção da arquitetura de negócio de linha de base (atual / as-is) e arquitetura de negócio alvo (futura / to-be). E a partir daí são analisadas as diferenças (gap analysis).

Um dos modelos de uma arquitetura de negócio trata dos modelos de processos de negócio. 

Lá naquele nosso exemplo do artigo anterior, foi feito um recorte na organização (lembra de não fazer tudo de uma vez só? Eu sei eu sei, vocês já sabem! Não vou repetir mais!) e os processos X, Y e Z foram selecionados dentro do escopo da rodada de arquitetura. Então, na fase A, foram definidos os requisitos de transparência que são relevantes, necessários ou mandatórios para o escopo definido. 

No exemplo as características de transparência selecionadas foram: Publicidade, Portabilidade, Clareza e Rastreabilidade. Vamos supor que na arquitetura de linha de base que foi elaborada (sinônimos: modelada, elicitada, construída) só é possível obter informações sobre os processos X, Y e Z através do SIC. Esse é meu ponto de partida. Agora quero olhar para o futuro, como deveria ser dado um horizonte de 12 meses?

Publicidade

Uma das ações necessárias para implantar essa característica de transparência é identificar locais e canais de divulgação das informações. Como estamos falando dos processos X, Y e Z, é necessário entender quem são os interessados nesses processos (gestores, executores, fornecedores, clientes, auditores, observadores). Baseado nisso, é necessário identificar os canais de divulgação que mais se adequam as necessidades de cada um desses atores.

Exemplo: O processo X tem como executor um grupo de funcionários de um órgão do Governo. O modo de divulgar as informações sobre o processo X para este grupo pode ser através de uma ferramenta que controle seu fluxo. Assim eles podem utilizar esta ferramenta, não só para controle e execução das tarefas, mas também para ter conhecimento sobre o status de andamento de cada demanda. Muito provavelmente, a implantação de uma ferramenta de controle do fluxo de demandas pode ter sido prevista devido a outros requisitos definidos na rodada – lembra? “fazer arquitetura” e atender a requisitos, demandas, necessidades “típicas” pode significar que já estou transparecendo ações e informações! É uma questão de analisar se a implementação desses projetos também atende aos requisitos de transparência. Caso positivo, Check! Você já está fazendo transparência! 

A partir daí é necessário pensar nos outros atores. Se o cliente é um cidadão, qual é a melhor forma para ele acompanhar o processo X, não só conhecer o processo como um todo, mas também o andamento da sua solicitação (e possivelmente de qualquer outra)? Via um sítio na internet? Além disso, deve ser definido o grau de sigilo das informações que são tramitadas durante a execução do processo X para que a publicidade das mesmas seja dada a cada ator no momento certo (de acordo com a lei). Pense em processos jurídicos, onde o grau de sigilo das informações vai mudando a medida em que o processo vai caminhando.

Então o modelo alvo (futuro / to-be) de negócio do processo X deve ser redesenhado e essas informações devem ser definidas e detalhadas. Aí você pergunta, mas e o sistema de controle de fluxo? E o site? Onde eu “modelo” isso no processo? Isso faz parte das fases C e D. É lá que serão modeladas as visões alvo da organização em termos de relação com sistemas e infraestrutura tecnológica e física para apoiar este processo. Mas a gente fala disso mais a frente! J

Portabilidade

Uma das ações necessárias diz respeito a permitir o acesso às informações em diferentes formatos (sendo pelo menos um aberto). Então para cada processo é necessário associar a ele os formatos em que será disponibilizado. Lembre-se que são inúmeros atores nesse processo. Provavelmente os atores que são parte interna deste órgão do governo necessitam apenas da visão que pode ser acessada via a infraestrutura provida pelo próprio órgão. Pode-se definir que o cidadão, que é o ator mais importante no processo X, deverá ter acesso a este processo, via qualquer navegador de internet existente (e não somente o IE né gente... – Eu já ouvi isso quando liguei para um órgão informando que não conseguia acessar determinada área de um determinado site).

Clareza

Uma das ações necessárias está relacionada a definir normais de apresentação da informação que sejam adequadas a cada público que a irá consumir. Então é necessário levar isso em consideração quando se for pensar na forma como cada ator vai tomar conhecimento sobre um processo. Os executores, profundos conhecedores dos termos do negócio que o processo X trata, vão ter acesso a um modelo mais rebuscado, utilizando os termos internamente já conhecidos. Mas e o cliente cidadão, será que ele entende o processo X na forma como está representado graficamente e, principalmente, textualmente? No artigo anterior eu comentei sobre processos jurídicos, pois estes já são velhos conhecidos por serem indecifráveis pela grande maioria das pessoas. Quantas pessoas conseguem entender, sozinhas em casa na frente do seu computador (smartphone, tablet, etc) o estado de um processo de julgamento no qual tem interesse e, principalmente, o contexto de sua condução até aquele momento e o entendimento sobre os próximos passos? Alguns desses itens vão ser representados nos modelos de negócio e outros vamos representar nos modelos de sistemas (C) e tecnologia (D).

Rastreabilidade 

Uma ação importante é identificar a fonte e o responsável pelos processos. Se no escopo da rodada de arquitetura está previsto modelar os processos X, Y e Z então é necessário somente verificar se na modelagem, os responsáveis pelas atividades e gestores dos processos estão previstos na modelagem. Se já estiver, você já está fazendo transparência! Check! 

Outro requisito de rastreabilidade está no entendimento da sequência de atividades, de onde vêm e pra onde vai. Se já está prevista a publicidade do andamento do processo X, Check! novamente. Você já está fazendo transparência! 


No próximo artigo vou falar sobre a fase C que envolve desenvolver os modelos da arquitetura de sistemas de informação.