terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Nas asas da Embraer

Há cerca de três anos participei de um evento da Marinha Brasileira em que um dos palestrantes era o famoso Ozires Silva, criador da Embraer e pioneiro na indústria de aeronaves genuinamente nacionais. O papo fluiu fácil e gostoso e Ozires conquistou a plateia comentando as diversas aventuras necessárias para convencer às pessoas da viabilidade e da importância estratégica de desenvolvimento do setor aeronáutico no País.
Uma das histórias marcantes que me recordo conta que depois de todo o projeto elaborado e de passar pelas mãos de vários atores que não davam o sinal para que a Embraer ganhasse corpo, Ozires levou a proposta ao gabinete do Ministro da Aeronáutica. Eram tempos do governo militar e o mandatário, cansado de ouvir as ponderações, abriu a janela da sala e ameaçou:
- Fiquem sabendo que atirarei pela janela o próximo que vier me falar de implantar uma empresa brasileira de aeronáutica!

    

















O prognóstico era desanimador. Se o próprio Ministro era contra o projeto, como fazê-lo (literalmente) decolar?
Foi aí que o acaso entrou em cena. O domingo amanhecera nublado e Ozires era o militar de mais alta patente servindo na base aérea de São José dos Campos naquele dia. De repente, recebeu uma mensagem urgente pelo rádio do posto: o avião presidencial não poderia aterrissar no destino previsto por causa do nevoeiro e seria desviado para São José. Caberia a ele, Ozires, "fazer sala" para o Presidente enquanto estivesse em solo.
Depois de uma hora de conversa, o assunto emperrou; foi então que Ozires tirou da gaveta o projeto da Embraer e começou a detalhá-lo para o Presidente - que não parecia demonstrar muito entusiasmo pela ideia, mas não o impediu de continuar a exposição.
Finalmente a autorização para decolagem veio e o chefe dirigiu-se para a aeronave. No último degrau da escada de acesso, inesperadamente ele se virou para trás e comentou:
- Pode tocar o projeto - vamos criar a Embraer!
Essa reveladora história reforça a noção que vários pensadores defendem de que devemos trabalhar pelo resultado que desejamos, porém com o desapego necessário à sua ocorrência (pois não dominamos todas as variáveis). Nas sábias palavras de José Saramago, "não tenhamos pressa, mas não percamos tempo".
Nossos modelos de processos devem, portanto, conter os detalhes necessários para que seus resultados sejam satisfatoriamente alcançados por meio de sincronias que ultrapassam a simples noção de atividades, aproveitando condições que podem ocorrer fortuitamente para as quais, se estivermos suficientemente preparados, nossos esforços serão recompensados.
Dizem que até hoje o Ministro está se mordendo de raiva da coincidência que lhe tirou a autoridade...
Feliz 2015 a todos!!!! Até o próximo post!!!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Siameses... só que não

Woody Luis
















Esta é da série "teorias delirantes que criei": para mim, Woody Allen e Luis Fernando Verissimo são gêmeos não-idênticos separados no nascimento, com características físicas bem diferentes superadas pela genética que os une.

Woody é nova-iorquino e Verissimo, porto-alegrense; um trabalha (principalmente) com cinema e o outro com literatura, mas as crônicas que escrevem ou filmam parecem se aplicar a qualquer situação da vida cotidiana, seja quando namoram com Bergman ou Borges e dão toques intelectualizados às palavras, seja quando registram o dia-a-dia do homem comum.

Luis Fernando morou quando criança nos Estados Unidos e foi alfabetizado em inglês - seu pai fora convidado para dar aulas no país. Nova Iorque, assim, é bem familiar ao gaúcho e sua paixão pelo jazz rende até hoje memoráveis contos que retratam fatos como assistir a Charlie Parker em bares enfumaçados. Verissimo toca saxofone como hobby, assim como Woody toca clarinete e é um grande conhecedor de música americana - é famosa a recusa dele em receber seu Oscar por "Noivo neurótico, noiva nervosa" alegando não poder comparecer à cerimônia por ser dia de tocar com seu conjunto de "dixie".

Quando vi o filme "Match Point" ("Ponto Final", em português), minha teoria do gêmeo que sente à distância o que o irmão faz ganhou mais força: a história do homem que tenta se livrar da prova do crime jogando a jóia no rio Tâmisa está presente na crônica "A verdade", que Verissimo escreveu há muitos anos. Talvez seja um tema recorrente e universal, mas os contornos que os dois dão às suas narrativas aproximam (e muito) os artistas.

Apesar das semelhanças e coincidências, Woody é Woody e Verissimo é Verissimo. Tentar tomar um pelo outro, além de absurdo, pode levar a consequências bastante frustrantes - como um guarda-roupa inadequado ao norte-americano, que é mais baixo que o brasileiro, ou esperar que Luis dirija um filme com a competência de Allen.

Da mesma forma, nossos processos complexos podem se espelhar em situações similares para recriarem condições necessárias ao seu bom funcionamento - mas dando a necessária atenção às diferenças que existem entre os contextos. Costumo ouvir com frequência termos como "padronização", "re-uso" e "reaproveitamento" que, se mal usados, introduzem distorções e resistências nos processos de trabalho. Um belo projeto de uma ponte japonesa pode ser uma referência para a que pretendemos construir em nossa cidade - porém, os materiais usados podem ter levado em consideração requisitos específicos para o local original de construção e, quando da contextualização ao nosso caso, podem possuir custos proibitivos ou dificuldade de obtenção. Mais crítico ainda, quando tratamos de pessoas, tentar enquadrar a ação de seres humanos em procedimentos frios e distantes das realidades locais, apenas porque um padrão foi definido por uma unidade central, pode trazer danos irreversíveis ao desempenho do processo. Devemos nos lembrar que a ideia original de padrão busca estabelecer a comunicação entre os elementos de um sistema/processo - e não a perda de flexibilidade. Quando formos modelar nosso processo, devemos representar o mais próximo possível a realidade, permitindo que Luis seja Luis e que Woody seja Woody.

Ah, e se você acha que "A verdade" e "Match Point" são uma simples coincidência, compare a cena de "Para Roma com Amor" em que a esposa se encanta com o ator de cinema e a crônica "Zona Norte, Zona Sul", em que Vânia é surpreendida pelo assaltante "Gatão"...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Como a Arquitetura Corporativa pode auxiliar o cidadão?


No artigo de hoje apresentaremos um caso envolvendo uma análise de negócios, orientada pelo uso da arquitetura corporativa, que permitiu automatizar e simplificar o processo de solicitação de subvenções para moradias, para cidadãos norte-americanos.

O Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD - Housing and Urban Development) é a principal agência federal norte-americana que trata das necessidades habitacionais da população, visando melhorar as comunidades daquele país. O HUD tem ajudado os americanos a realizar o sonho da casa própria, fornecendo seguro hipotecário para cerca de 37 milhões de famílias. O Departamento tem mais de 9.000 funcionários e um orçamento anual de US $ 28 bilhões, dos quais 258 milhões são voltados para projetos de TI.

A Lei Federal de Melhoria da Gestão de Assistência Financeira (Federal Financial Assistance Management Improvement Act), de 1999, estabeleceu a iniciativa “grants.gov” para permitir interações eletrônicas simples e unificadas entre os cidadãos candidatos a subvenções e as agências federais. Essa iniciativa exigiu que as agências fornecessem aos usuários a opção de apresentação das solicitações de subsídios, por meio eletrônico, através de um único site.
 
O HUD também é direcionado pela Lei Clinger-Cohen, de 1996, concebida para melhorar a maneira como o governo federal americano adquire, utiliza e dispõe de tecnologia da informação (TI) e pela Circular OMB A-130, que obriga o desenvolvimento e aplicação de uma única arquitetura corporativa para os órgãos federais. A arquitetura corporativa também é um componente chave do governo eletrônico (e-Government) no progresso da Agenda de Gestão do Presidente dos EUA.

Desde então, o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano enfrentou vários desafios:
  • O HUD possuía 43 modalidades de financiamento, usando 72 formulários de solicitação diferentes; 
  • A maioria dos programas de concessão não previa o intercâmbio eletrônico de dados; 
  • Para representar os subsídios no Modelo Lógico de Dados de Gestão de Subsídios (LDM - Logical Data Model), os dados de vários programas tiveram de ser conciliados e padronizados em todo o Departamento; 
  • Diante dos inúmeros programas de subsídios, dos requisitos exclusivos de coleta de dados, do tempo limitado e dos padrões em desenvolvimento, o HUD necessitava de uma solução flexível para iniciar a consolidação de diversos formulários, bem como se preparar para as mudanças ocasionadas nos processos usados em seus escritórios responsáveis pelos programas.
O projeto, liderado pelo Grupo de Gestão de Informação Corporativa (EIMG - Enterprise Information Management Group), inicialmente, “arquitetou” e implementou uma solução para converter formulários manuais de solicitação de subvenções, para um formato eletrônico.

Arquitetos corporativos e arquitetos de soluções trabalharam em colaboração com os especialistas técnicos e de negócios do Departamento e de outras agências governamentais para orientar o desenvolvimento de modelos de tecnologia da informação, que representassem todas as necessidades nas camadas da Arquitetura Corporativa do HUD. A prática forneceu orientação estratégica para o processo de Gerenciamento de Investimento em TI (ITIM - IT Investment Management), alinhando soluções comuns a todas as linhas estratégicas de negócios, funções de negócios e serviços de TI essenciais ao Departamento. Essas atividades permitiram acelerar o processo de modernização de TI no HUD.

Esta abordagem baseada em arquitetura corporativa permitiu ao HUD converter 99% de suas aplicações de concessão de subvenções, para o formato eletrônico “grants.gov”, em menos de um ano. Os principais resultados do Projeto de Padronização dos Dados de Subvenções, incluem:

• Serviço melhorado para os clientes e parceiros de negócios. O HUD fornece aos seus clientes e parceiros de negócios, tais como governos estaduais e municipais, organizações sem fins lucrativos, idosos/deficientes e famílias de baixa renda, um processo simplificado e padronizado para aplicar concessões. Isso criou um ponto único de entrada para todos os pedidos eletrônicos de subvenção solicitados ao Departamento.
• Roteiro para padronizar dados de subsídios. O HUD desenvolveu um roteiro para consolidar e padronizar dados de subvenções, de forma a reduzir os riscos e custos na implementação de uma solução única e integrada para a gestão de subvenções.
• Framework para gerenciar e medir mudanças futuras. O "as-is" da arquitetura de gestão dos dados de subvenções, fornece ao HUD uma "linha de visão" necessária para responder rapidamente às revisões anuais de infraestrutura e aplicações necessárias à gestão das subvenções. Esta metodologia de arquitetura de dados fornece processos repetitivos e métricas de referência para mostrar os progressos em relação à consolidação de formulários e à padronização de dados.

Com base nesses resultados, o HUD foi capaz de reprogramar US $ 2,5 milhões do sistema de subsídios para financiar outras iniciativas de missão principal, e reduziu seus custos em US $ 1,5 milhões.

Atualmente, as práticas de arquitetura corporativa no HUD desencadeiam um ciclo de vida de TI, composto por 3 fases integradas: arquitetura, investimento e implementação. O trabalho de arquitetura corporativa é orientado ao negócio e as soluções de TI tem início com o modelo de negócio pretendido firmado como meta. O HUD “arquiteta” antes de projetar e projeta antes de construir e implantar tecnologias.

Além de transformar a forma como o Departamento presta seus serviços, essa abordagem permite ainda:
  • Simplificar as decisões de investimento em TI;
  • Acelerar a implementação de sistemas;
  • Reduzir a diversidade de sistemas.
Até aqui foram apresentadas propostas e casos de sucesso no uso da arquitetura corporativa em apoio à gestão e governança das empresas. No próximo artigo, questionaremos  o seu uso! Não perca e não deixe de comentar!

XBRL & GIS: Possibilidades de Integração de informações geográficas com documentos XBRL

Este artigo tem por objetivo mostrar algumas iniciativas de integração entre XBRL e Dados geográficos, baseado no trabalho “XBRL GIS: Integrando informações geográficas em documentos XBRL” de Marcio Alexandre Pereira da Silva e Paulo Caetano da Silva, publicado no 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI, em 2013 (SILVA & SILVA, 2013).

Sistemas de Informações Geográficas (SIG) são fundamentais em áreas que necessitam de aplicações computacionais capazes de manipular e analisar informações baseadas em sua localização no espaço geográfico. A crescente utilização do SIG, no contexto Web 2.0 impulsionou o surgimento de novas ferramentas e aplicações, aumentando as possibilidades de aplicações em outros domínios (J. da Silva, 2008), tais como: sistemas espaciais de suporte à decisão (SESD), business inteligence (BI), geospatial data warehouse (GDW), processamentos analíticos online espaciais (SOLAP), conforme se verificou em (Fu & Sun, 2010; J. da Silva, 2008; Marshall et al., 2010; P. C. da Silva, 2010). A demanda pela utilização de SIG na Web impulsionou também a criação de linguagens voltadas para a distribuição e visualização de dados geográficos, tais como: GML (Geography Markup Language), KML (Keyhole Markup Language), GeoMDQL (Geographic Multidimensional Query Language) (Open Geospatial Corporation, 2003; J. da Silva, 2008).

Baseado no conceito de Geottaging (processo de adicionar informação de localização geográfica a outros elementos digitais), este artigo apresenta os benefícios da metodologia criada por SILVA & SILVA (2013) para a incorporação de informações geográficas, aos relatórios financeiros que trafegam pela Internet. Nesta proposta os dados geográficos são codificados na linguagem GML (Geographic Markup Language) e os dados financeiros na linguagem XBRL (eXtensible Business Reporting Language).

A abordagem apresentada no artigo de SILVA & SILVA (2013) permite a interação de SIG com o processamento financeiro (XBRL), viabilizando a gestão das informações financeiras nas organizações baseadas em visualizações geográficas, tornando-se uma ferramenta útil no processo de elaboração de estratégias empresariais e governamentais baseadas em visualizações.

O geoprocessamento na área financeira pode ser utilizado em diversas atividades, tais como: manutenção do cadastro imobiliário, manutenção do cadastro mobiliário ou comercial, manutenção do cadastro de logradouros, geração e atualização da planta genérica de valores, entre outras (Teodoro, 2012). Duas aplicações pertinentes da proposta deste trabalho seriam: a) um projeto de arrecadação de IPTU, baseados em georeferenciamento, no qual seria possível localizar via mapa todos os munícipes e processar o valor do IPTU devidamente correto, baseada na área construída, conforme se propôs implantar no município de Maricá/RJ (Costa, 2013); b) localizar os imóveis inadimplentes, por meio dos mapas, conforme ilustrado na Figura 1.



 Figura 1. Exemplo de visualização geográfica que mostra os imóveis inadimplentes, em
amarelo (município de Maricá/RJ).

XML Link Language

Uma tecnologia usada para estabelecer links entre dados representados em XML é XLink (XML Link Language) (O'Reilly & Associates,2002), que define dois tipos principais de links: os simples e os estendidos. Um link simples associa exatamente dois recursos, um local e um remoto. Essa associação cria um arco de ligação entre eles, cuja origem é o recurso local e o destino, o remoto (P. C. da Silva, 2010), conforme ilustração da Figura 5.

Ainda segundo este mesmo autor, os links estendidos permitem associar um número arbitrário de recursos participantes na ligação. Um link estendido consiste basicamente de um elemento XML que contém outros elementos, nos quais atributos especificados por XLink são declarados, conferindo a estes sub-elementos determinadas funcionalidades. XLink provê quatro tipos de sub-elementos: (i) locator, usado para referenciar recursos remotos por meio de uma URI; (ii) resource, usado para encapsular informações no elemento de link estendido; (iii) arc, usado para estabelecer relações direcionais entre pares de elementos locators e/ou resources; e (iv) title, que provê informações descritivas a respeito do link, que devem ser entendidas por pessoas. A utilização em conjunto de tecnologias para definir a estrutura e relacionamentos entre instâncias XML forma uma rede de documentos XML.


A proposta apresentada por este artigo é satisfeita com uma ligação simples, entretanto, conforme O'Reilly & Associates (2002), a utilização de um link estendido pode prover um conjunto adicional de recursos. Esta característica tem importância, porque muito embora este trabalho trate do link de forma unilateral entre dois elementos baseados no XML, necessita-se de alguns recursos para estruturar os dados dentro do elemento segment, conforme explicado na próxima seção.

Trabalhos Correlatos

Os trabalhos citados a seguir serviram de base para endossar a importância das visualizações nas análises de negócios financeiros, ambos utilizaram documentos XBRL em suas investigações:
  • Marshall et al. (2010) elaboram um estudo de como a visualização gráfica das informações financeiras contidas em documentos XBRL, podem ajudar em uma melhor compreensão do negócio pelos envolvidos.
  • Dilla et al. (2010) fazem uma análise da relação das tomadas de decisão e técnicas de visualização de dados interativos, além do impacto das técnicas de visualização de dados interativos em processos de decisão e resultados.
Ambos os trabalhos concluíram que a visualização gráfica contribui positivamente com as abordagens pesquisadas pelos autores, ou seja, tanto no aprendizado como nas tomadas de decisões, as análises baseadas em visualizações gráficas possuem relevância.

A possibilidade de integrar informações processáveis por SIG nos documentos XBRL, possibilita uma abordagem SIG, que integrada a documentos XBRL, podem proporcionar facilidades para as análises financeiras das organizações, baseadas em visualizações geográficas.



A escassez de pesquisas que tratam sobre esta abordagem, exige estudos detalhados da estruturação básica dos documentos formatados nas linguagens discutidas neste trabalho (GML e XBRL). Sendo a XBRL uma linguagem baseada em padrões, conforme é visto em (XBRL International Consortium 1998, 2003a, 2003b), é possível estender o seu uso com a proposta abordada neste trabalho a qualquer sistema de informação que manipula documentos XBRL, já que a mesma obedece às recomendações do consórcio internacional da linguagem.

Este trabalho publicado por SILVA e SILVA (2013) reforça a necessidade de mais pesquisas e diretrizes que busquem a integração e a interoperablidade de sistemas, dados e tecnologias, principalmente envolvendo dados geográficos.


Referência: SILVA, Márcio Alexandre Pereira; SILVA, Paulo Caetano. XBRL GIS: Integrando informações geográficas em documentos XBRL. 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI. June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Continuando a criação de uma instância XBRL

Em um artigo anterior começamos a descrever o processo de criação de uma instância (eXtensible Business Reporting Language)XBRL, e neste artigo daremos continuidade a esta descrição.

Já comentamos que a tag principal de um documento XBRL deve ser a tag xbrl, mas se você analisar o documento de exemplo que acompanha os arquivos da taxonomia do SICONFI(Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro ), irá verificar que na verdade a tag principal está escrita como xbrli:xbrl. Surge a dúvida: O que significa este xbrli que aparece na frente? Isto significa um namespace (espaço de nomes).

Namespaces

Um namespace consiste em uma funcionalidade do padrão XML (no qual está baseado o XBRL), que foi criada para evitar o conflito na criação de nomes de tags. Imagine que uma organização A criasse a tag "pessoa" para descrever as informações importantes sobre uma pessoa para aquela organização, e outra organização B também criasse uma tag "pessoa" com o mesmo objetivo. Neste caso haveria um conflito caso as tags fossem usadas em um mesmo documento XML. Para que este problema não ocorra, deve-se utilizar os namespaces. Com isso, a organização A terá um espaço de nomes de tags distinto do espaço de nomes de tags de outras organizações, evitando o conflito.

No caso do do namespace xbrli, presente no documento de exemplo da taxonomia do SICONFI, ele é associado à organização XBRL International, conforme descrito no trecho do documento de exemplo abaixo:

xmlns:xbrli="http://www.xbrl.org/2003/instance"

A diretiva xmlns indica que se deseja utilizar um namespace no documento, que neste caso receberá o nome xbrli, e que está associado à URL informada. Isto indica que, naquele documento, sempre que uma tag for precedida pelo namespace xbrli, aquela tag deverá ser interpretada conforme estabelecido pela organização XBRL International.

Outro namespace importante existente no arquivo de exemplo é o namespace siconfi-cor, definido da seguinte maneira:

xmlns:siconfi-cor="http://fazenda.gov.br/siconfi/cor/ic/siconfi-cor_2014-09-30"

Esta definição indica que, sempre que alguma tag for precedida pelo namespace siconfi-cor, ela deverá ser interpretada conforme a definição feita pelo Ministério da Fazenda.

Fica o convite para o leitor estudar os outros namespaces existentes no documento de exemplo, tanto os que são referentes ao padrão XBRL, quanto aqueles que foram criados especificamente para o SICONFI.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Modelos de processos a partir dos resultados

"Tempos Modernos" é um dos grandes filmes de Charles Chaplin e certamente sua cena mais marcante é aquela em que o personagem interpretado por ele cai nas enormes engrenagens da fábrica em que trabalhava. É uma contundente e ao mesmo tempo lírica crítica à excessiva mecanização do trabalho e das relações humanas, em um tempo em que o próprio Chaplin se negava a aderir à modernização da indústria cinematográfica e insistia em manter mudos os seus filmes.



Há, no entanto, uma honrosa concessão ao som em "Tempos Modernos", na sequência em que o trabalhador canta para uma plateia. A cena é excepcional: para lembrar-se da letra da canção, Chaplin a anota nos punhos de sua roupa mas, envolvido em seus movimentos, acaba por perder sua "cola" e tem de improvisar as palavras. Sua agonia ao ver o chão fugir de seus pés é um dos grandes momentos do filme.

Quando alterávamos o método de abordagem de processos em minha passagem na gerência de nosso escritório de soluções, há oito anos, pedi ao grupo de consultores que nos assessorava que eu fosse o primeiro a passar pelo movimento de mudança - queria aplicar o remédio em nossa unidade, para saber a partir de qual dosagem ele poderia converter-se em veneno...

Então, em um fim de tarde, estava reunido com um grupo de três consultores externos, pronto para iniciar a modelagem do processo de "desenvolvimento e implementação de soluções empresariais. Não estava, porém, preparado para o que iria ocorrer:

- Primeira pergunta: qual o valor que o processo do escritório entrega à organização?

Estava acostumado a mapear um processo a partir da solicitação - e não da entrega. Achei a pergunta um pouco estranha, mas não perdi a calma:

- Fácil! - é só olhar as normas internas. O valor entregue são "soluções empresarias desenvolvidas e implantadas". Podemos agora mapear o fluxo de atividades?

Os consultores se entreolharam sorrindo. O coordenador do grupo voltou à carga:

- Olha, do jeito que você descreveu não nos ajuda muito - na verdade, pouco auxilia a você mesmo. O que são soluções desenvolvidas e implantadas? São modelos desenhados? São melhorias implementadas? São sistemas automatizados, competências adquiridas, cultura de gestão disseminada? Ou é tudo isso junto?

Estava completamente desnorteado.

- Além disso, quais as características de validade que tornas as tais soluções úteis para a organização? Você conhece as necessidades do seu público-alvo? Sabe se o tempo que você leva para entregar a solução é compatível com o esperado? Os custos são condizentes com o que foi planejado?

- Não sei boa parte dessas respostas - afirmei.

- Ótimo! Já é um bom começo. Então, busque essas informações com quem sabe e amanhã continuamos.

Saí grogue da reunião. Fui atrás dos dados que precisava e, no dia seguinte, outras demandas surgiram. Um leve desespero quase tomou conta da situação ao ver que, na primeira semana de trabalho, meu mapa continha apenas um valor (resultado, entrega) modelado e sua qualificação.

Foi aí que meus pés voltaram a pisar o chão - eu havia compreendido o método!

Uma vez que tinha uma boa visão (senão a certeza) do resultado que eu precisava gerar, podia começar imediatamente a gestão do meu processo, verificando a diferença entre o que era necessário e o que já possuía na unidade. Seria muito mais fácil identificar insumos, referências, recursos de infraestrutura e sincronizá-los, podendo gerar - se preciso - meus modelos de processo a partir dos valores pretendidos.

Os mapas foram sendo construídos muito mais enriquecidos e com a participação dos envolvidos no processo, porém pouco se assemelhavam à minha vontade original de registrar um fluxo de atividades. 

Afinal, como "Tempos Modernos" já nos ensinou, seres humanos não são máquinas...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

XBRL e sua relevância na sociedade



Muito se tem discutido sobre as melhores práticas para o compartilhamento das informações contábil-financeiras. É bem verdade que, na era da internet, o ritmo encontra-se demasiadamente acelerado. Mal o contador aprende a utilizar a ferramenta disponível, já se tem outra mais moderna e cheia de siglas difíceis.

Bom, o intuito do eXtensible Business Reporting Language – XBRL é reportar o grande número de demonstrativos existentes, de forma que todas as partes relacionadas possam intercambiar entre si aqueles dados que necessitam.

Ele nada mais é do que uma tecnologia que visa a automação dos processos de envio e recepção das demonstrações, por parte da pequena, média e grande empresa. Ele não altera o conteúdo, mas permite uma conversão para qualquer sistema.
 
Este é um sonho antigo para a contabilidade, pois, para atender aos vários órgãos de controle, é imprescindível a adaptação dos relatórios de forma a cumprir as legislações vigentes.

A sua importância reside no fato que os usuários poderão transformar todos os documentos, seja em word ou outro formato, em arquivos que serão lidos por qualquer entidade que utilize o padrão, diminuindo a demora da entregas dos resultados e barateando os custos com revisão de informações.
 
O grande passo foi dado em 2014, com a implantação do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais-SICONFI, pela Secretaria do Tesouro Nacional, para todos os entes federados, pois o sistema citado já utiliza o padrão XBRL.
Aliado a este programa, também se encontra em fase de desenvolvimento a utilização desta linguagem pelo SPED – Sistema Público de Escrituração Digital. Quando ocorrer a completa aderência, faltará muito pouco para todos os órgãos utilizarem esta ferramenta.

Haverá um tempo em que não será necessário possuir diversas planilhas com diferentes planos de contas, pois basta configurar o tipo de informação e esta será lida por todos. Será maravilhoso quando isto acontecer, entretanto os contabilistas terão um caminho a percorrer. Será de vital importância perder o medo da tecnologia e aprofundar-se no estudo.
 
Têm-se um vasto campo a ser explorado, então mãos à obra, que Deus ajude a todos! E, contadores, sem essa de que informática é para os analistas, afinal na era da evolução digital, quem não muda fica na pré-história.

Ciência de Dados e o futuro de todos nós


Minha mãe conta que quando era criança, na escola, constantemente pedia ajuda dos colegas para entender o que estava escrito no quadro. Isso se seguiu por anos até que um dia alguém questionou-a se não seria o caso de ela usar óculos, e se algum dia já havia feito exame de vistas.

Ela mesma, minha mãe, com aproximadamente 50 anos, fez uma cirurgia de coluna, para corrigir lesões antigas que com a idade se agravavam. Após o período de recuperação ela percebeu que algo simplesmente não estava mais ali: Uma dor constante e sutil com a qual convivera por décadas.

Hoje já estou casado há quase 4 anos e percebo que minha esposa amorosamente aponta algumas deficiências minhas que eu nunca havia percebido. Ela é capaz de perceber relações com hábitos dos meus pais, com experiências do passado, e chegar a um diagnóstico que eu nunca chegaria sozinho.

Isso tudo me faz perceber que há aspectos fisiológicos e psicológicos com os quais podemos conviver por anos, ou pela vida inteira, sem perceber. Alguém, em algum momento, vai nos conhecer melhor do que nós mesmos nestes aspectos.

Mudando completamente de assunto, mas não exatamente, tenho estado intensamente envolvido com uma área que tem tido estrondosa e acelerada ascensão, Ciência de Dados, uma área com base na "boa e velha" estatística, que consegue extrair o máximo proveito do poder computacional e de armazenamento dos computadores atuais, minerando e aprendendo em cima de dados que estão cada vez mais acessíveis e disponíveis (o famoso Big Data).

Hoje em dia, um cientista de dados pouco experiente, como eu, tem à sua disposição ferramentas simples e intuitivas para minerar e cruzar dados de todas as redes sociais mais utilizadas no mundo (sim, aquela que você usa também). É simples, os dados estão lá! E o dito cientista de dados não precisa nem ser um cientista da computação, ou um desenvolvedor de software, pode ser um sociólogo, um jornalista, um economista, enfim, qualquer um com mínima ousadia em linguagens de programação e um tanto de curiosidade sobre um determinado assunto.

Mais do que isso, a área de Ciência de Dados ainda engloba a área de Aprendizado de Máquina (ou Machine Learning) onde mecanismos já antigos de mineração de dados são agora utilizados em parceria com a computação de alto desempenho (High Performance Computing) para um aprendizado estatístico em cima dos dados e a construção de modelos preditivos que simplesmente indicam que resposta uma determinada pergunta deve ter. Quem vai ganhar a eleição? Determinado paciente possui câncer ou não? O que há de diferente e incomum em uma fotografia de uma determinada galáxia a partir da super lente de um satélite ou em uma imagem de uma grande multidão fazendo um protesto em frente à sede do governo de um determinado país?

                                                                 
















Isso tudo já está aí, disponível para usuário comuns, e mais disponível ainda para grandes agências de tecnologia e/ou governamentais. Já existe software para identificar exatamente o que há em uma fotografia, ou para o antigo "onde está o wally?".

De uma forma muito simples tais tecnologias podem ser portadas para processamento de vídeos, de câmeras de vigilância, para indicarem informações em tempo real, como, por exemplo, a presença de um potencial terrorista com uma bagagem suspeita em um aeroporto ou em algum outro lugar com grande fluxo de pessoas.




Um exemplo bastante atual é o vazamento de informações ultra-secretas por parte do ex-analista Edward Snowden sobre um amplo programa de vigilância promovido pela US National Security Agency (NSA), o que levantou um grande debate (e muitos conflitos diplomáticos) em torno do uso de tais tecnologias por parte tanto de governos quanto de grandes empresas de tecnologia.

Agora, o que isso tudo tem a ver com as histórias que contei no início? Bom, ao que tudo indica, todas as comunicações humanas já podem estar sendo registradas em supercomputadores em algum lugar (ou em alguns lugares) por aí. Através de tecnologias de Processamento de Linguagem Natural (Natural Language Processing) é possível interpretar áudio para texto e extrair a semântica do texto, tudo automaticamente. Meu iPhone, mesmo desligado, pode estar transmitindo uma conversa que estou tendo com amigos em minha sala de estar. Tudo, absolutamente tudo, pode estar sendo registrado.

Imagine então um super-computador com um programa altamente sofisticado, que entende tanto de aspectos psicológicos quanto fisiológicos. Tal equipamento poderia ser capaz de identificar em uma inteira população quantos possuem algum problema de visão, ou algum problema de coluna, ou cardiovascular, e por aí em diante. O computador (e a agência que o detém) poderia saber disso antes de a própria pessoa o saber, poderia me conhecer melhor do que eu mesmo.                    
                             
                     

E não para por aí! Atualmente, 39% da população mundial tem acesso à internet. No entanto, grandes corporações como Google, Facebook e Tesla já estão com projetos bastante adiantados de levar a internet ao planeta inteiro. Quando isso acontecer, provavelmente todos os dispositivos eletrônicos que usamos estarão conectados à rede. É a "Internet das Coisas" (Internet of Things), onde ganham espaço também as tecnologias de Wearable Computing, ou seja, computação que você veste. Grandes nomes como o físico Stephen Hawkins, questionam o perigo de tais avanços.

Evidentemente que tudo isso gera muitos ganhos em termos de segurança, de previsão de atentados terroristas, previsão de catástrofes naturais, previsão até de bolsa de valores. Já vem a muito tempo sendo usado também para direcionamento de marketing, oferecendo aos clientes exatamente aquilo que eles vão querer comprar, com isso o lucro destas grandes instituições aumenta aceleradamente, as pessoas ficam mais felizes com o que compram e todos ficam mais felizes com os riscos dos quais o governo alega as proteger.

É um tópico um tanto quanto interessante. Eu, particularmente, tenho um interesse gigante pelas tecnologias envolvidas em tudo isso. Sempre gostei de matemática, sempre gostei de computação e, recentemente, aprendi a gostar muito de estatística.

Porém, o debate sobre o que nos espera no futuro segue em aberto e vou, por enquanto, guardar um pouco as minhas opiniões pessoais sobre isso.

                   

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A história, como farsa...

Há uma frase atribuída a Karl Marx de que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa. É provável que todos nós tenhamos vivido "a mesma" situação repetidas vezes em nossas vidas, nunca exatamente como a história original, mas com requintes contextuais - por exemplo, projetos que são tratados como novidade apesar de você ter guardada uma cópia de um similar que foi abandonado há cinco anos atrás.



Em 2007 eu coordenava um escritório central de projetos de modernização de processos e estávamos incorporando novos método, ferramenta e forma de atuar junto às unidades negociais da empresa. Uma das primeiras iniciativas sob tal enfoque consistia na atualização tecnológica de um grade sistema de concessão de empréstimos, a maior carteira do Brasil no segmento. E foi aí que a tal repetição da história ocorreu...

Cerca de 25 anos antes meu pai havia sido o chefe daquela unidade de empréstimos e enfrentara uma atualização de plataforma tecnológica do sistema automatizado. O trabalho já durava alguns meses e um dia um dos funcionários de sua equipe veio se queixar da complexidade do projeto em curso:

- Puxa, a coisa toda é muito difícil! Temos cerca de dois milhões de alternativas distintas a serem tratadas pelo programa.

- Como assim? Se a carteira global de contratos tem cerca de um milhão de contas, como o programa pode ter um número maior de casos para tratar?

Mais de duas décadas depois, o mesmo problema estava sendo discutido pelas equipes envolvidas no projeto. A premissa tradicional que os consultores de processos e de TI adotavam levava a tais percepções distintas. Uma forma de abordar o problema é considerar que todo contrato assinado é "igual", pois se refere ao mesmo tipo de empréstimo. Apesar de funcionar bem em um primeiro momento, tal representação é um pouco afastada da realidade, e isso fica mais claro quando começamos a refletir que, embora sendo contratos da mesma carteira, os dados individuais são específicos, assim como as condições que começam a ocorrer quando da vida propriamente dita dos contratos. Por exemplo, eu e você podemos assinar um contrato sob as mesmas condições na mesma data e na mesma agência bancária, mas meus dados pessoais são diferentes dos seus. Além disso, digamos que um ano depois da assinatura eu consiga um desconto especial na justiça ao qual você não tem direito, ao passo que você resolve amortizar algumas parcelas finais e modifica o seu saldo devedor. Falando claramente, a forma mais correta de modelar tal processo é considerar cada um dos contratos como um elemento paralelo aos demais, sendo que o limite para tal complexidade acaba sendo, de fato, o número de contratos existentes na carteira. Neste caso, seria impossível termos mais condições distintas que a própria quantidade total de empréstimos.

Voltamos, assim, àquele ponto em que devemos decidir qual a melhor forma de representação dos processos (que depois serão automatizados): um simples fluxo de atividades que considera "tudo farinha do mesmo saco" - por exemplo, dez atendentes em um balcão como sendo clones perfeitos um do outro e um milhão de contratos exatamente iguais - ou uma rede de relacionamentos que permite a identificação e a gestão das diferenças observadas no mundo real. As figuras abaixo ilustram de forma bastante simplificada tais pontos de vista (a primeira se refere a uma unificação da manutenção do contrato mas que, na prática, gera árvores complexas de possíveis alternativas; a segunda já trata desde a modelagem do processo cada contrato como um elemento único).



Pode ser mais difícil modelar, mas a última alternativa costuma dar melhores resultados.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O que são Sistemas de Informações Geográficas?

Já há algum tempo, com a evolução da informática, surgiram novas possibilidades de análises estratégicas para o auxílio na tomada de decisão. A possibilidade de visualização dos resultados das análises, espacialmente em um mapa, faz com que a compreensão por intermédio do analista seja de forma facilitada e clara. Esse tipo de tecnologia é chamada de Sistema de Informação Geográfica – SIG, mas essa tecnologia já era usada bem antes da invenção do computador.

Um bom exemplo disso é um caso acontecido na cidade de Londres em 1854. Nessa época Londres estava sofrendo uma grave epidemia de cólera, doença cuja forma de contaminação não se conhecia. Numa situação em que já havia ocorrido mais de 500 mortes, o doutor John Snow teve uma ideia: colocar no mapa da cidade a localização dos doentes de cólera e dos poços de água (naquele tempo, a fonte principal de água dos habitantes da cidade).

Com a espacialização dos dados, o doutor Snow percebeu que a maioria dos casos estava concentrada em torno do poço da Broad Street e ordenou que este fosse lacrado, o que contribuiu em muito para debelar a epidemia.

Esse caso forneceu evidência empírica para a hipótese (comprovada posteriormente) de que a cólera é transmitida por ingestão de água contaminada. Essa é uma situação típica em que a relação espacial entre os dados muito dificilmente seria inferida pela simples listagem dos casos de cólera e dos poços. O mapa do doutor Snow passou para a história como um dos primeiros exemplos que ilustram bem o poder explicativo da análise espacial e do GIS.

Segundo Korte (2001) ¹ , o SIG é uma ferramenta utilizada para análises de informação geográfica que usa funções de dados geométricos ligados a tabelas de atributos alfanuméricos. Essas ligações são feitas por meio de um identificador (chave).



Os dados geométricos e alfanuméricos, dessa forma interligados, suprem sistemas computacionais, o que possibilita a análise de problemas predeterminados. Um GIS permite a visualização espacial dos dados através de interfaces gráficas dos sistemas e/ou através da confecção de mapas impressos, nos quais são ilustradas as soluções de problemas.

Os dados espaciais são observações documentadas ou resultados da medição. A disponibilidade dos dados oferece oportunidades para a obtenção de informações. Os dados podem ser obtidos pela percepção, através dos sentidos (por exemplo, observação), ou pela execução de um processo de medição. Nesta seção descreveu - se quais são as características dos dados utilizados nos sistemas de informação geográfica – GIS.
Uma base de dados geográfica é um depósito de fatos ou conceitos do mundo real que possuem atributos convencionais e atributos espaciais que descrevem sua forma e indicam sua localização na Terra (sobre/sob).

O depósito de dados espaciais ocorre tanto na forma de sistemas de arquivos como na de sistemas de banco de dados. Como no sistema de banco de dados, existem diversas vantagens comparadas ao sistema mais tradicional de armazenamento de dados espaciais. A grande maioria dos aplicativos SIG ainda trabalha com sistemas de arquivos, perdendo assim todas as vantagens de um SGBD (Sistema Gerenciador de Banco de Dados). Ao utilizar um sistema de banco de dados, é primordial que os atributos convencionais e espaciais estejam relacionados, para que, a partir de tais dados, o usuário consiga encontrar determinada informação. Além disso, o banco de dados permite o relacionamento entre as entidades espaciais.

Sendo assim, a expressão "banco de dados espacial" pode ser usada quando se quer utilizar um repositório de dados com relações entre as entidades espaciais que descrevam a localização no espaço e sua forma de representação, nas notações de área, linha ou ponto.

Um banco de dados espacial é um dos principais componentes de um SIG, pois é nele que estão armazenados as referências da relação do dado com o mundo real, principalmente no que tange à geografia. Por meio do banco de dados espacial é possível um SIG realizar processamentos geométricos, análise espacial e fazer relação entre dados convencionais e espaciais.

Como exemplo, a figura a seguir mostra algumas telas da plataforma ArcGIS, sistema de informações geográficas da empresa Esri, com análises espaciais em 2D e 3D.

Fonte: http://www2.transportes.gov.br/bit/01-inicial/sig.html
           http://www.esri.com

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Que tal não se preocupar com a forma como o governo se organiza, mas ter o serviço eletrônico que você precisa ?



No artigo anterior, apresentamos como a arquitetura corporativa apoia o desenvolvimento dos negócios baseados no uso intensivo de tecnologias digitais da atualidade: Redes Sociais, Dispositivos Móveis, Analytics, Computação em Nuvem e Internet das Coisas (SMACIT).

As ideias apresentadas foram transcritas a partir de uma palestra proferida pela Professora Jeanne Ross durante o evento Oracle Enterprise Architecture Summit 2014, ocorrido em San Francisco, EUA, em outubro último.

Neste artigo relataremos alguns fatos apresentados pela professora Ross sobre empresas que adotaram tecnologias SMACIT associadas às iniciativas de arquitetura corporativa.

O primeiro caso foi o da United Services Automobile Association (USAA), uma empresa de serviços financeiros que tem como clientes membros das forças armadas dos Estados Unidos e suas famílias. A USAA é líder na satisfação dos clientes em seu segmento. A empresa provê serviços relacionados aos “eventos da vida” de seus membros, tais como nascimento, faculdade, casamento, e assim por diante.

A USAA não quer que seus membros se preocupem com a forma como a empresa está organizada ou que divisão eles devem procurar: seguros, banco de varejo ou serviços de consultoria financeira. Para garantir uma experiência coesa, a área de Estratégia Empresarial da USAA criou uma nova divisão chamada Experiência do Cliente. Foi realizado um trabalho envolvendo um arquiteto de negócios para descobrir como reprojetar seus serviços associados à economia digital. Agora, eles estão construindo uma camada de apresentação, que lhes permite utilizar qualquer capacidade da empresa e entregar os serviços em qualquer dispositivo. Aproveitando esta plataforma centralizada, a USAA construiu um negócio “Omni-Channel”. Essa é uma das grandes tendências no mercado de varejo. Agora não há mais diferenças entre lojas físicas ou lojas online. O cliente conhece o produto na Internet e compra na loja física, e/ou vice-versa. Assim, a experiência do consumidor se dará por meio de diversos canais disponíveis de compras, ou seja, dispositivos móveis, Internet, televisão, telefone, entre outros. Essa mudança no cenário e no comportamento das pessoas resulta em um consumidor mais experiente, por isso os funcionários da empresa precisam ser mais bem informados sobre produtos, serviços e processos internos e finalísticos, o que requer o envolvimento de um arquiteto corporativo para mapear e desenvolver todas as necessidades visando a prestação dos serviços de uma nova forma.

A Royal Philips, com sede na Holanda, é uma empresa de tecnologia diversificada, concentrada em melhorar a vida das pessoas por meio de inovação significativa nas áreas de Cuidados com a Saúde, Estilo de Vida do Consumidor e Iluminação. A empresa é líder em cuidados com o coração, doenças agudas e cuidados com a saúde em casa, soluções de iluminação com eficiência energética e novas aplicações de iluminação, assim como aparelhos para barbear e aparar pelos masculinos e saúde bucal. A empresa compreende 60 categorias de negócios em 100 países. De acordo com Ross, o CEO (Chief Executive Officer) da Philips Frans von Houten queria transformar o negócio por meio da aplicação de inovação local para o desenvolvimento de produtos, combinado à padronização dos principais processos para permitir escalabilidade em todo o mundo. Ele e sua equipe de gestão identificaram quatro processos de negócios principais que deveriam ser corrigidos - A Cadeia de Valor Vencedora: Ideia ao Mercado (Idea to Market), Mercado ao Pedido (Market to Order), Pedido ao Faturamento (Order to Cash), e Habilitadores (Enabling):



Os líderes de negócio da Philips rapidamente descobriram o quão difícil seria implementar esses processos essenciais para três categorias de negócios tão diferentes. Os arquitetos corporativos ajudaram a reconstruir esses processos, tendo em conta as suas necessidades/recursos compartilhados. Eles usaram metodologias ágeis para manter as pessoas de negócio envolvidas. O grupo de líderes neste momento, já possui esses quatro processos remodelados e está utilizando-os como base para redesenhar a empresa para a economia digital.

O Commonwealth Bank of Australia é um banco multinacional australiano com negócios na Nova Zelândia, Fiji, Ásia, Estados Unidos e Reino Unido. A organização está abraçando SMACIT para simplificar as conexões para que os clientes entrem em contato com o banco. Depois de descobrir que ficou em quarto lugar entre os quatro grandes bancos em sua região, o alto escalão da organização determinou que eles precisavam oferecer mais serviços digitais a fim de acompanhar a concorrência. Eles usaram tecnologias de nuvem para simplificar as operações de TI e as mídias sociais para envolver os clientes. Os arquitetos corporativos continuam a desempenhar um papel importantíssimo em "redesenhar a experiência do cliente."

Qual é a moral dessas histórias? As tecnologias SMACIT permitem que as empresas possam se posicionar rapidamente no mercado, desde que saibam onde querem chegar. Ter uma visão clara da arquitetura da organização vai ajudar a levar a empresa através destas quatro etapas:


As empresas que alcançam uma vantagem competitiva com as tecnologias SMACIT detêm capacidades muito bem estruturadas e sabem como utilizá-las. Como elas fazem isso? Primeiro elas acham o desejo principal, a paixão da gestão. Na USAA, foram os eventos de vida integrados. Na Phillips foi escalando processos operacionais. No Commonwealth Bank, foi a determinação em reduzir custos operacionais e aumentar a satisfação do cliente. Depois, em cada um desses casos, os arquitetos foram incumbidos de identificar as estratégias corretas, ajudando a gestão a alcançar clareza sobre os produtos e serviços digitais, e certificando-se de que as novas tecnologias possam ser implantadas e realmente utilizadas. 

Podemos notar mais um ponto em comum entre esses casos: a experiência do cliente como estratégia para a diferenciação.

No próximo artigo será relatado um caso de uso da arquitetura corporativa para a melhoria de serviços prestados a cidadãos norte-americanos. Até lá!